sábado, 27 de agosto de 2016

Moonlight - Capítulo Vinte e Quatro

Assim que os últimos raios solares desapareceram no horizonte, dando finalmente o lugar às estrelas brilhantes, o nervosismo preencheu o interior de Jongdae ao ponto de refletir em suas palmas trêmulas. Kyungsoo, que estava ao seu lado, notou que o mais velho não se sentia bem, enquanto ambos caminhavam paralelamente na direção da biblioteca da mansão. Desde que Baekhyun deixou a Ordem após a longa discussão com o Sr. Kim, o Mordomo do Líder estava visivelmente hesitante, chegando a questionar ao professor de História sobre o que ambos haviam conversado. O mais novo, como resposta, deu de ombros, alegando que era um assunto particular entre os irmãos e se foi, desaparecendo atrás dos portões de ferro. Agora, ambos os seguidores dos irmãos Kim se encontravam diante a belíssima porta de carvalho branco, apenas esperando a permissão para entrarem.
_ Você está bem? – perguntou Kyungsoo, olhando-o.
_ Eu não costumo ficar tão nervoso. – sussurrou e tão logo abriu as portas robustas, avistou seu Mestre sentado atrás de uma grande mesa. – Meu senhor?
Lentamente, Minseok desviou as safiras brilhantemente azuladas para a dupla e gesticulou para que entrassem, voltando sua atenção mais uma vez para o livro à sua frente. Jongdae foi o primeiro a andar, acompanhado por Kyungsoo e pararam próximo ao mais velho que ainda estava em silêncio. Outro que estava próximo do líder também era Yixing, que estava sentado sobre a mesa, enquanto lia uma das primeiras obras produzidas por Edgar Allan Poe. O chinês, notando a presença dos dois seguidores, fechou o livro e se virou para a dupla, alternando os olhos entre os Mordomos e o líder da Ordem, enquanto reprimia uma risada. Ele conhecia o homem de madeixas acinzentadas o suficiente para saber que estava repreendendo o rapaz.
_ Ainda me pergunto por que não se sentaram. – murmurou o Líder, folheando a página.
_ O senhor ainda não nos permitiu. – adiantou Kyungsoo, fazendo Jongdae lhe encarar incrédulo. Ele acabou de responder ao Mestre?
_ De fato. – concordou, sorrindo de leve e levantou os olhos para o moreno de olhos grandes, gesticulando, por fim, para que ambos se sentassem. – Obrigado por terem vindo. – começou, fechando o livro sobre a mesa e relaxou sobre a poltrona de veludo. – Imagino que esse não deva ser meu trabalho, mas... Como o antecessor de Jongdae não está vivo para fazer isso... Eu o farei. – logo, desviou os olhos para os dois rapazes. – Esta noite, eu irei lhes contar sobre a vida do antigo Mordomo da Ordem, o velho Lee.
_ Essa é uma história que eu adoraria ouvir mais uma vez. – sorriu Yixing.
_ Infelizmente, vou ter que pedir ao Sr. Zhang para que se retire. – e se virou para o loiro que arqueou uma das sobrancelhas. – Isso é um assunto particular, Yixing.
Em resposta, o chinês alternou os olhos entre os dois morenos e o Mestre, formando um pequeno bico nos lábios finos e assentiu, deixando a biblioteca em seguida. Kyungsoo se virou para Minseok, que girava o livro para os rapazes, e franziu o cenho sem compreender por que Yixing não poderia ficar para ouvir. No entanto, foi Jongdae quem ditou sua pergunta em voz alta, recebendo, como uma resposta fria e seca de que “o Chefe dos Zeladores não era um Mordomo”, voltando assim a fitar a capa de couro por longos minutos.
_ Antes de iniciar, há uma pergunta que eu gostaria de fazer aos dois. – e lhes fitou. – Vocês conhecem ou já ouviram falar do Mordomo Velho Lee?
_ Apenas que foi ele quem salvou os filhos do antigo líder da Ordem, Kim Minseok e Kim Baekhyun. – disse Jongdae.
_ E você, Kyungsoo? – desta vez, se virou para o menor que simplesmente negou com a cabeça. – Certo. Sobre o ato heroico do Velho Lee em salvar as duas crianças, Jongdae está certo. No entanto, vocês têm o direito de saber um pouco sobre a vida do homem que em seus últimos dias de vida, dedicou-se a proteger meu pai e a Ordem dos Caçadores e, principalmente, sobre a posição de vocês nesta Instituição.
“Para início de conversa, a ligação Mordomo/Líder da Ordem nunca foi forte como é nos últimos tempos. Entre 1880 e 1930, muitos líderes foram assassinados ou encontrados mortos devido o descuido ou até mesmo a infidelidade de seus seguidores. Mas havia um motivo para isso: quem escolhia os novos Líder e Mordomo da Ordem era os Chefes dos Departamentos. Ou seja, estava sob a escolha dos outros quem seria aquele que você protegeria ou seria protegido”.
“E a rivalidade entre os dois cargos era extrema. Ainda me recordo de dois casos em particular que me chocaram quando mais novo. Um, era de um Mordomo que, ao tentar proteger o líder, foi brutalmente morto por um vampiro antigo, e como o seu Mestre não tinha nenhum treinamento de autodefesa ou algo do gênero, foi facilmente assassinado. O outro é que, durante uma caçada, o Mordomo deixou seu Mestre ser atacado pelas criaturas noturnas e fugiu do combate. Como punição pela traição ao Líder, aquele Mordomo foi banido da Ordem dos Caçadores”.
“Segundo os relatos recebido pelos Chefes dos Departamentos, os Mordomos se recusavam a proteger os líderes por que estes sequer moviam um dedo para ajuda-los, até por que seus Mestres não tinham nenhum treinamento de autodefesa ou combate corporal para que pudesse se proteger quando seu seguidor falhasse em seu dever. Pelo menos, essa era a maior das reclamações durante esse período”.
“Até que em 1936, meu bisavô – e, na época, Líder da Ordem aos 22 anos –, Choi Minho, decidiu seguir um protocolo completamente diferente. Desde jovem, ele iniciou seu treinamento rigoroso e, como sempre acontecia, os Chefes dos Departamentos logo o escolheram como novo Líder da Ordem. Todavia, quando eles queriam anunciar seu seguidor – aquele que lhe protegeria com sua vida –, meu bisavô se recusou, alegando que ele mesmo escolhia o seu Mordomo. Foram quatro longos anos à procura do homem – ou mulher, afinal, até as caçadoras da Ordem também treinavam rigorosamente para se tornar seu seguidor – que seria seu fiel braço direito. E é aí que nosso personagem mais importante entra na história”.
“Em 1940, o Velho Lee não era tão velho assim. Na verdade, ele era mais jovem do que vocês dois quando se tornou Mordomo do Líder da Ordem. Dezesseis anos, para ser mais exato. Mas, vamos por partes, sim?”
“Assim como muitas crianças da Ordem, ele era filho de um zelador e estava em treinamento com o pai quando foi assistido pelo Sr. Choi do andar de cima. Ele viu um grande potencial naquele rapaz e não demorou muito para reunir-se com os Chefes dos Departamentos. ‘Eu encontrei aquele que me protegerá’, dissera na época, durante a reunião. E, naquela mesma noite, o filho do zelador apareceu, juntamente com o pai, no escritório do Líder, bastante nervoso e hesitante. Meu bisavô se apresentou ao rapaz e conversou com os dois sobre sua decisão final”.
“O velho Lee costumava dizer que, naquela época, ele desejou seriamente recusar o pedido de meu bisavô por que não era capaz de cumprir uma tarefa tão difícil. No entanto, as palavras de Minho soaram como um bálsamo para ele, assim como soam para mim até hoje: a função Líder/Mordomo é uma via de mão dupla. Você me ajuda e eu o ajudo. Você me protege e eu o protejo. Foram dois longos anos treinando seriamente o rapaz até que, na primavera de 1942, o Líder da Ordem anunciou a todos que Lee Taemin era o seu novo Mordomo”.
Enquanto Minseok continuava com sua explicação, Jongdae apenas baixou os olhos para as próprias mãos, ao mesmo tempo que sua mente se recordava do pronunciamento de seu Mestre e toda a comemoração dos caçadores e Chefes dos Departamentos. No fundo, o moreno sabia que ele não era a primeira escolha do Sr. Kim.
“Todavia, para assumir seriamente a posição que lhe foi dada, Taemin teria de passar pela prova mais importante de um Mordomo: a de proteger seu Mestre do perigo numa situação real. Como de costume, o Sr. Choi trajou suas roupas de caça e ambos rumaram para a cidade vizinha, afinal de contas, uma criatura mal abraçada estava dando trabalho para o Distrito que protege a região. Foi uma luta difícil para os dois, principalmente por que o Mordomo hesitava ao atacar. ‘Lembro-me de seu bisavô me prender entre ele e a parede, bloqueando a minha boca com a mão e sibilar para que eu não tivesse medo de atacar, pois ele protegeria minhas costas’, foi o que dissera o Velho Lee quando relatou sobre sua primeira caçada”.
“No final, eles conseguiram derrotar o vampiro, juntamente com a Brigada. Entretanto, nenhum dos caçadores haviam previsto a chegada de uma segunda criatura que, violentamente, atacou o Líder, mordendo seu ombro. Taemin entrara em desespero e, sem pensar muito, voou contra os dois, retirando a criatura de seu Mestre. Foi uma luta complicada para o Mordomo pois, além de se preocupar com o Sr. Choi, ele tinha que acabar com aquele ser da noite. O Velho Lee contou-me que, no instante em que a criatura morreu em suas mãos, ele correu para Minho e sob seus gritos, eles o levaram para a Ordem”.
_ E o Líder da Ordem... Sobreviveu? – questionou Jongdae, desviando os olhos lentamente para o homem de madeixas acinzentadas, que sorriu de leve, retribuindo o olhar.
_ Sim. – respondeu. – Foi complicado trazê-lo de volta, mas... Tudo acabou bem. Minho o parabenizou pela coragem em lutar contra a criatura e salvá-lo da morte. E, desde aquele momento, foram muitas as caçadas em conjunto. Pelo que eu posso compreender, ambos foram os primeiros a mostrar para toda a Ordem de que o Líder e o Mordomo podem sim, se unirem por uma causa maior.
_ Por quanto tempo viveu o Velho Lee, Sr. Kim? – perguntou Kyungsoo.
_ Eu diria que... – pensou um pouco. – O Velho Lee atravessou quatro gerações da minha família.
_ Q-quatro? – Jongdae piscou surpreso.
_ É possível? – completou Kyungsoo.
_ É, desde que você se torne pai ou mãe muito cedo. – comentou, rindo. – Taemin assistiu minha avó nascer. Ele tinha vinte anos quando meu bisavô se tornar pai. No mesmo período, em 1944, ele estava namorando uma caçadora e se tornou pai aos vinte e seis, em 1950. Foi a maior felicidade da vida dele.
“Infelizmente, a mesma não durou muito tempo. Em 1958, quando tinha 34 anos, Taemin voltava da Mansão quando encontrou sua casa completamente destruída. Todos os móveis estavam revirados e... Seu filho e sua esposa estavam mortos. Ordem dos Caçadores se prontificou em ajudá-lo a encontrar aquele que assassinou sua família, mas o Velho Lee se recusou, alegando que encontraria sozinho. E o fez. Três meses depois, ele retornou de sua caçada com três cabeças em uma das mãos e sua arma de prata descarregada. Os três vampiros que ele havia decepado eram antigos Líderes dos Clãs da Máscara: um Brujah, um Assamita e um Malkavian”.
“Minho ainda tentou impedi-lo de iniciar uma guerra contra a Máscara, conversando com o Príncipe da época, o Sr. Jung Yunho, e por sorte – ou talvez paciência – o vampiro concordou, alegando compreender o mal-entendido. Foi a partir daquele ano que o Velho Lee se tornou rude, grosseiro e, mal-humorado. Eram poucos os que conseguiam conversar com ele. Diria que a morte do filho e da esposa o quebrou emocionalmente, mas a morte de meu bisavô, em 1964, terminou de destruí-lo por completo”.
“Como tantas outras vezes, os dois estavam numa caçada simples – além do mais, o reforço era maior quando se precisava caçar um vampiro antigo – à uma cria mal abraçada quando Choi Minho sofreu um infarto. Ambos estavam expostos e, possivelmente poderiam ser atacados, mas... Taemin não se importou em tentar salvá-lo ali mesmo. Ele costumava me dizer que... Todas as noites, sonhava com meu bisavô morrendo em seus braços e ele não podia fazer nada”.
“Revelar à minha avó que seu pai havia morrido era mais doloroso do que reencontrar seu próprio filho morto. Taemin prometeu a jovem Sooyoung de que faria de tudo para proteger tanto o filho que carregava quanto a própria moça. Myungsu, seu marido e meu avô, na época, Chefe do Departamento Médico, foi obrigado a assumir temporariamente o cargo, já que o Mordomo se recusara em aceitar quando lhe foi proposto. ‘Eu não tinha mais idade e nem cabeça para aguentar as coisas na Ordem, Minseok-ah’, dissera-me naquela noite”.
_ E depois? – Kyungsoo o olhou, enquanto Minseok tomava um pequeno gole de água. – O que ele fez?
_ Deixou a Ordem. – suspirou, respondendo. – Segundo ele, os Chefes estavam decidindo se deveriam ou não colocar o irmão mais velho do meu bisavô como Líder. Chegaram até lhe propor, mas ele acabou se recusando.
_ E por quanto tempo o posto de Líder da Ordem ficou vazio? – questionou Jongdae.
_ Deixe-me ver... – pensou um pouco. – 1964 menos 1980... Dezesseis anos. – e o fitou, notando o olhar surpreso alheio. – As razões por este posto ficar vazio por tanto tempo eram que ninguém tinha... Perdão pela palavra mas, “culhões” para suportar tanta responsabilidade.
_ E nesse meio tempo, o que aconteceu? – Kyungsoo tornou a perguntar.
_ Muitas coisas. – suspirou. – Meu tio nasceu em 1965 e um ano depois, meu pai nasceu, também provocando a morte da minha avó. Taemin disse que foi um parto complicado e que ela havia perdido muito sangue, mas ficou feliz pelo meu pai ter nascido saudável.
_ Eu... Não sabia que o senhor tinha um tio. – Jongdae franziu o cenho.
_ Nem eu. – Minseok sorriu fraco, voltando a encarar o vazio. – O Velho Lee costumava dizer que, no período em que meu pai e meu tio eram pequenos, eles praticamente viravam a mansão de cabeça para baixo. Em 1979, meu avô foi assassinado durante uma briga de bar, vítima de bala perdida. Aquilo foi o suficiente para separar os jovens irmãos Kim, Baekbeom e Baekhyung.
“No começo, Taemin achou que tudo o que acontecia com a família Choi era culpa sua, afinal, duas gerações haviam morrido diante de seus olhos. Seria uma questão de tempo até que meu pai ou meu tio também morressem. Por isso, em 1982, ele recusou o pedido de Kim Baekhyung em se tornar o seu Mordomo. ‘Seu pai era um moleque sem juízo naquele ano. Além de ter se tornado líder da Ordem mais cedo do que seu pai e seu avô, ele ainda me queria como seu seguidor!’. Eu ri bastante naquela noite que me contara e ainda acho engraçado quando me recordo”.
“Todavia... Meu pai sempre foi insistente. Tanto que acabou limpando a casa do Velho Lee, como forma de agradá-lo e fazê-lo mudar de ideia. Foi um ano complicado, até que... No ano seguinte, em 1983, ele aceitou desde que Baekhyung não fizesse nenhuma besteira como Líder. Bem... Só houve duas besteiras que ele fez durante seu tempo como líder e Taemin teve de arcar com as consequências”.
_ Quais foram? – Jongdae e Kyungsoo perguntaram simultaneamente.
_ Se tornar pai em 1987 e 1993. – comentou, fazendo os dois Mordomos lhe fitarem surpresos. – Foi complicado no nascimento do primeiro filho por que Yura havia morrido horas após o parto, mas... Segundo meu pai, o Velho Lee reencontrou a felicidade quando me viu nos braços dele. “Eu sei que perdeu seu filho muito jovem, Velho Lee, mas eu gostaria que o aceitasse como seu suposto ‘neto’, já que você cuidou de mim como filho”.
_ Ele viu o senhor e o Sr. Byun nascerem? – questionou Kyungsoo.
_ Sim. – assentiu. – Baekhyun não se lembra, mas numa noite, eu e o Velho Lee tivemos que acalmar o menor enquanto meu pai trabalhava. Até que... Finalmente, em 1995, aos 71 anos... Lee Taemin cumpriu seu último dever como Mordomo do Líder.
E o silêncio reinou na enorme biblioteca. Minseok suspirou arrastado, enquanto uma lágrima discreta e solitária escorria por sua bochecha, fazendo-o fechar os olhos. Afinal, ainda lhe doía relembrar do passado sombrio. Os dois Mordomos observaram as feições do mais velho, esperando por alguma palavra, porém, o dono das safiras apenas se levantou de sua poltrona e mancou para fora da biblioteca, ao mesmo tempo que Yixing surgia na entrada. O chinês, em silêncio, permitiu que o outro passasse e se aproximou dos rapazes devagar, sentando-se na mesa.
_ Entendam-no. Foram anos complicados para a família Choi e... – começou.
_ Nós sabemos. – concordou Jongdae.
_ Mas por que ele nos entregou esse livro? – Kyungsoo ergueu o objeto e Yixing sorriu.
_ Bem, aí em suas mãos, está toda a árvore genealógica da família Choi. – explicou, enquanto o moreno de olhos grandes desviava a atenção para a capa de couro, abrindo-a e folheando suas páginas. – Vão encontrar algumas fotos e desenhos dos familiares do Sr. Kim, assim como uma suposta lenda que ronda os membros da família.
_ Olha, o nome do irmão do Sr. Choi Minho também é Minseok. – comentou Kyungsoo, interessado.
_ E isso não é tudo. – o loiro sorriu e se aproximou, tomando o livro de Kyungsoo. Por fim, colocou o mesmo sobre a mesa e folheou algumas páginas, parando em uma enorme árvore genealógica. – Tentem encontrar alguma semelhança nessa árvore.
_ Os nomes? – Jongdae questionou, desviando os olhos para Yixing que negou com a cabeça.
_ Pense um pouco mais. – sugeriu, avaliando as feições dos dois Mordomos.
No entanto, antes que ele encontrasse alguma coincidência – qualquer que ela fosse –, Jongdeok surgiu na entrada da biblioteca, ordenando ao trio para que se preparasse, já que, em algumas horas a festa se iniciaria. Jongdae se virou para Yixing que apenas balançou a cabeça e, mais uma vez, saiu do salão, porém, antes que o seguidor de Minseok o acompanhasse, a voz de Kyungsoo chegou aos seus ouvidos.
_ Seriam os irmãos? – murmurou o menor.
_ Vamos, Kyungsoo. – chamou o maior, deixando assim, o lugar.
_ Pode ir na frente. – respondeu, observando a árvore genealógica.
Por fim, Kyungsoo folheou mais algumas páginas e parou diante um pequeno texto escrito à mão.
Conta-se a lenda de que uma moça tão bonita quanto o amanhecer e tão branca quanto os primeiros flocos de neve fugia de seus perseguidores, carregando em seu ventre, duas crianças.
Não se sabe quais motivos a levaram para fugir ou quem eram os seus perseguidores, mas de alguma forma, ela precisava sobreviver.
Até que, durante seu trajeto em meio a floresta, ela encontrou o chefe de uma tribo nômade e lhe implorou por abrigo.
Percebendo o estado da jovem moça, o grande líder a aceitou, escondendo-a entre seus seguidores que, discordaram piamente daquela decisão.
Ela era diferente deles.
Mas o que eles podiam fazer quando ela estava para ter as duas crianças?
Tiveram que aceitá-la.
Quando a primeira neve se formou no chão, transformando a terra num imenso tapete branco, os bebês vieram ao mundo, alegrando toda a tribo.
Com eles, as crianças viveram, dormiram, comeram e se harmonizaram até a vida adulta.
No entanto, a anciã da tribo alertou ao chefe sobre o que aconteceria as duas crianças e o que estava por vir.
Uma das crianças carregará as características do pai.
A outra, a da mãe.
Uma das crianças nos deixará.
A outra prosperará conosco.
Uma das crianças será marcada para sempre.
A outra estará ferida para sempre.
Uma das crianças morrerá nos braços de seu amor.
A outra se vingará de seu assassino.
Uma das crianças será lembrada por toda a vida.
A outra, por toda a eternidade.
Uma das crianças se apaixonará pelo impossível.
A outra será o alvo dessa paixão.
Uma das crianças os salvarão do perigo.
A outra continuará seu legado.
E quando o chefe perguntou à Anciã da tribo qual era qual das crianças, a velha sábia apenas respondeu:
“Encontre a resposta em seus olhos”.
Kyungsoo releu o pequeno conto, ainda sem entender o contexto das palavras quando se surpreendeu com um toque suave em seu ombro. Ao desviar os olhos para o lado, avistou Yixing trajando roupas mais formais, enquanto um pequeno sorriso se formou em seus lábios finos.
_ Ainda lendo e não se aprontou?
_ Perdão. – murmurou, levantando da cadeira e fechou o livro, seguindo chinês que rumava para fora da biblioteca. – Não posso só ficar aqui até o fim da festa?
_ Não gosta de dançar? – brincou, vendo-o negar com a cabeça.
_ Não me sinto bem com tantas pessoas num único lugar. – suspirou.
_ Então, acostume-se. – declarou, batendo de leve em seu ombro e se afastou. – E trate de se aprontar ou eu relatarei ao líder. Ele quer todos os caçadores no grande salão.
E, enquanto o grande salão da Ordem era preenchido pela chegada dos caçadores, Minseok se encontrava sentado em sua cama, encarando o próprio reflexo no espelho. Aquela não era a primeira vez que ele lia aquele conto escrito no livro sobre sua família. Assim como não seria a primeira vez que alguém lhe dizia que aquela lenda rondava por seus antepassados. Um suspiro pesado escapou de sua boca pequena, fazendo-o se levantar e andar até a poltrona, onde estava a sua camisa de botões preta.
_ Precisa de ajuda? – aos poucos, seus olhos se ergueram, encarando a varanda longamente, em resposta ao sussurro vindo do lado de fora. Recostado ao parapeito e trajando as tradicionalíssimas vestimentas de caçador, o homem de madeixas escuras retribuiu seu olhar, enquanto um sorriso retangular se formava em seu rosto. – Não acredito que consiga vestir a camisa com esse braço engessado.
Com seus passos relutantes e as órbitas azuladas visivelmente marejadas, Minseok segurou a camisa com uma das mãos e abriu a porta da varanda, caminhando até o maior que se desencostava do parapeito e estendia a mão para pegar o tecido. Logo que o fez, o homem de madeixas acinzentadas se virou de costas, controlando o choro que ameaçava escapar de sua garganta, enquanto era vestido calmamente pelo outro. Já não bastava aquele homem aparecer com Yixing quando estava sozinho na biblioteca, ele ainda estava ali, lhe vestindo?
_ Decidiu contar a história para o seu Mordomo? – sussurrou contra sua orelha. Minseok apenas assentiu, engolindo o choro, apesar das lágrimas já escorrerem por suas bochechas. – O Velho Lee ficaria orgulhoso de você... Minseok-ah.
Lentamente, o homem o virou para si, abotoando cada casa num intervalo de dois segundos. Durante todo o processo, o líder da Ordem sequer desviou os olhos do rosto alheio, que pacientemente o vestia. No fundo, Minseok odiava sentir aqueles calafrios, especialmente, na frente daquele homem. Por fim, quando os dedos gélidos dobraram as mangas da camisa na altura dos cotovelos, o menor, por puro impulso, o abraçou, cercando o único braço saudável em torno de seu tronco e afundou o rosto contra o peito alheio. E, sem conseguir se controlar mais um segundo, permitiu que seu choro e soluços abafados escapassem. Em resposta, o maior engoliu em seco, fechando os olhos e afagou suas madeixas acinzentadas.
_ Perdoe-me, minha criança. – sibilou, ainda ouvindo o choro alheio. – Perdoe-me tê-lo abandonado. Perdoe-me por não os ter protegido. Perdoe-me por força-lo a amadurecer e carregar um fardo tão pesado nas costas.
Mais alguns minutos se passaram até que Minseok se acalmou, ao mesmo tempo que a música preenchia toda a mansão. Logo, os Netunos molhados se viraram para o homem que se despedia com um sorriso curto antes de desaparecer na noite gélida. Um suspiro cansado deixou os lábios pequenos do Líder da Ordem que limpou as últimas lágrimas e rumou para fora do quarto, avistando seu Mordomo que parecia extremamente exuberante aos seus olhos.
_ Aconteceu algo, meu senhor? – questionou Jongdae, percebendo que o mais velho havia chorado.
_ Não. – negou e ofereceu-lhe o braço. – Vamos. A festa começou.
E, enquanto a Ordem se divertia com a música animada pela mansão, os ofegos cansados e os passos largos atravessavam as ruas pouco movimentadas de Londres. Contra o vento frio, as madeixas douradas voavam, atraindo cada vez mais as criaturas que o perseguiam com o faro. Cansado, suado e ferido, o garoto de pele castanha tentou correr mais rápido, enquanto gritava por socorro, apesar de ninguém caminhar por aquelas bandas naquele horário. Seus pés descalços se machucavam no asfalto gelado e úmido, chegando a tropeçar algumas vezes e cair no chão, enquanto as risadas grotescas e animalescas ecoavam em seus ouvidos, fazendo-lhe tremer assustado.
Ele devia ter ouvindo seus pais.
Não devia ter saído de casa naquela noite.
Não demorou muito para que as imagens de seus amigos serem devorados por alguma coisa que ele julgou ser meio cão, meio homem fez seu estomago embrulhar e vomitar parte do álcool que havia ingerido. No entanto, o garoto não fez menção em parar, apenas limpando a boca carnuda e ferida com o dorso da mão ensanguentada. Assim que seus olhos cor de âmbar se desviaram para trás, o medo preencheu seu interior, fazendo-o acelerar o ritmo e, sem sequer perceber, o garoto saltou por sobre o muro como se fosse um obstáculo pequeno.
Não demorou para que os gritos de ordens, obrigando-lhe a parar chegaram aos seus ouvidos aguçados, fazendo-o tropeçar e cambalear pela grama verde, enquanto seus âmbares brilhantes avistavam algumas pessoas saírem da mansão e o encararem confusas. Um sorriso cansado se formou em seus lábios em alívio quando um grupo pequeno se aproximou dele. As lágrimas já escorriam por seu rosto, fazendo-o cair de joelhos e chorar baixinho, ao mesmo tempo que um rapaz de cabelos negros e belamente arrumados num topete abaixou-se a sua frente.
Se pelo menos ele estivesse bem arrumado para o outro...
_ Por favor... – arfou, choroso, fechando os olhos no segundo em que sentiu as mãos quentes segurando seu rosto. – Me... Ajuda...
E o rapaz desconhecido desmaiou nos braços de Kyungsoo que lhe encarava confuso. Rapidamente, o moreno avaliou as condições do mais alto – e ele era visivelmente mais alto que o Mordomo de Baekhyun – notando uma grande marca de mordida em seu ombro e sangue por toda parte, especialmente nas pernas. Seus joelhos estavam ralados e sujos por causa da grama, havia um pequeno ferimento no canto de seus lábios grossos e alguns arroxeados em seus braços e punhos, como se houvesse relutando contra algo que o aprisionara.
_ O que está acontecendo aqui? – Minseok atravessou em meio aos caçadores, com Jongdae ao seu encalço, e parou próximo à Kyungsoo. – O que houve com ele?
_ Eu não sei, senhor. – respondeu, olhando-o. – Vou precisar leva-lo para a enfermaria. – e se virou para dois ‘recrutas’. – Tragam uma maca. Agora!
_ Senhor. – logo a atenção do trio se desviou para o sentinela que cumprimentou o líder. – Nós vimos o rapaz saltando o muro e algo parecia ao seu encalço.
_ É impossível! – Jongdeok, ao qual nenhum dos três percebeu a aproximação, bufou incrédulo. – O muro tem mais de 3 metros!
_ Três metros e dez, para ser mais exato. – completou o sentinela.
_ E o que o seguia? – questionou.
_ Não sabemos. – respondeu. – As sombras apenas sumiram quando o rapaz saltou.
_ Senhor. – murmurou Jongdae próximo do líder. – Ainda que ele tentasse saltar o muro, ele precisaria escalar, mesmo numa distância longínqua.
_ Cuidado. – pediu Kyungsoo, ajudando-o os dois rapazes a colocar o ferido na maca. – Vão na frente. Eu já estarei indo. – ordenou e a dupla concordou, rumando para o interior da mansão. Por fim, o moreno se virou para o líder que retribuía o olhar. – Se me der licença, senhor.
_ Me avise quando ele acordar. – pediu, ao que o menor assentiu, desaparecendo de sua vista.
 _ Sr. Kim? – chamou Yixing que se aproximava, ao que a atenção do homem de madeixas acinzentadas se desviaram para o chinês. Por fim, o loiro parou diante o líder e seu semblante assumiu uma forma preocupada. – Minseok... Eu verifiquei o paciente por cima antes de Kyungsoo.
_ E o que descobriu? – o olhou.
_ É pior do que temíamos. – suspirou. – Pelo que me disse e pelas minhas verificações, acho que aquele garoto é uma vítima dos Adoradores da Lua.
_ Londres se tornou um banho de sangue... – murmurou Minseok, enquanto se recordava das palavras de Sehun. – Peça aos caçadores que aproveitem a festa. Eu irei retornar aos meus aposentos. – declarou, recebendo um aceno positivo do outro. – Vamos, Jongdae. – chamou o Mordomo que curvou-se, seguindo-o.
_ Podem voltar à festa! – disse Yixing animado, enquanto gesticulava para que todos entrassem.
E enquanto o chinês pedia para que todos retornassem ao salão, Kyungsoo adentrou a grandiosa enfermaria, onde os dois ‘recrutas’ estavam e lhes agradeceu, pedindo para que os mesmos saíssem. Logo, suas órbitas escuras se viraram para o loiro e, em pouco tempo, o Mordomo iniciou os primeiros procedimentos. Estranhamente, a vítima ainda estava viva e respirando, o que era um bom sinal. Em seguida, verificou os ferimentos mais simples, limpando-os – claro que depois, ele teria de arcar com as roupas do moreno já que estavam destruídas – e rasgou a camisa – que aos olhos do menor, não fazia nenhuma diferença. Ela já estava destruída, então, por que pagaria por ela? –, examinando o ferimento no ombro.
_ Uma queixada grande... – murmurou. – E presas pontudas.
Com cuidado, limpou o sangue e cuidou das feridas, enfaixando o ombro e peito do rapaz. Foi uma luta para Kyungsoo despir o acamado e colocar-lhe vestes mais largas, ainda mais com algumas enfermeiras se oferecendo para ajudá-lo. O moreno sempre se virou bem sozinho, por que raios precisaria de alguém?
_ E como andam as coisas? – a voz calma de Eunjung chegou aos seus ouvidos, fazendo-o desviar os olhos para a mulher. Assim que a mais velha parou diante a cama, um sorriso maroto transpareceu seus lábios. – Até que ele é bem gato.
_ Eu encontrei uma marca de mordida grande no ombro dele. – revelou, fazendo-a olhá-lo. – Além desses hematomas. – e mostrou-lhes à médica.
_ E as pernas? – gesticulou com a cabeça.
_ Apenas ralados por causa dos tropeços. – explicou. – Os pés estão vermelhos e sujos por causa do asfalto. – e a encarou. – Ele veio correndo.
_ Certo. – concordou. – E o ferimento na boca?
_ Provavelmente o estapearam antes da fuga, é difícil dizer.
_ Vai precisar de ajuda? – a pergunta fez Kyungsoo parar de verificar a agulha que aplicaria no paciente e desviar os mares escuros para a morena, que ainda mantinha um sorriso maroto no rosto. – O que?
_ Não é necessário, Srta. Kim. – declarou pacientemente. – Pode voltar à festa.
_ Tudo bem. – a médica deu de ombros e antes que deixasse completamente a enfermaria, deixou sua cartada final. – Mas tome cuidado para não se apaixonar pelo paciente!
_Até parece... – riu soprado, aplicando a agulha e regulou no tubo para que o soro descesse. – Bom... Aproveite bem a festa daqui.
E, em passos lentos, o moreno rumou para fora da enfermaria, ordenando para que dois caçadores vigiassem o paciente, estando um do lado de fora e o outro, do lado de dentro. Sem encontrar o líder da Ordem ou o Mordomo no grande salão de festas, Kyungsoo caminhou na direção do escritório de Minseok e bateu de leve na porta, anunciando sua entrada. Porém, antes que pudesse tocar na maçaneta, o homem de madeixas acinzentadas surgiu diante de si, despido da cintura para cima, sem sapatos e cinto.
_ Deseja algo, Sr. Do? – questionou-o com o semblante cerrado.
_ Vim relatar sobre o paciente, Sr. Kim. – explicou de cabeça baixa. Nem ele sabia que o líder estava daquele estado. – Além dos hematomas e a mordida grande em seu ombro, ele parece bem. O deixei tomando soro e sob supervisão de dois caçadores
_ Muito bem. Me avise assim que ele acordar. – pediu. – Precisarei conversar com ele.
_ Tudo bem. – concordou. – Mas... Sr. Kim? – continuou antes que o dono dos Netunos fechasse a porta. – O senhor viu Jongdae?
_ Ele... – começou, respirando fundo. – Retornou aos seus aposentos.
_ Sim, senhor. – agradeceu, curvando-se. – Obrigado e tenha uma boa noite.
_ Igualmente. – disse, fechando a porta em seguida.
Kyungsoo reprimiu um sorriso, afinal, ele já desconfiava da ligação entre o Líder da Ordem e o Mordomo, por mais que os dois negassem a todos os ventos que nada ocorria. Porém, antes que seus pensamentos rumassem para alguma suposição do que estaria acontecendo naquele escritório, a fisionomia esguia e forte de Jongdae surgiu virando no corredor, visivelmente perdido em devaneios.
_ Onde estava? – perguntou o moreno, surpreso e confuso com a aparição alheia.
_ Em meu quarto. Por que? – o olhou.
_ Achei que estivesse... – começou Kyungsoo, quase gesticulando na direção do escritório do líder.
_ No escritório de Minseok? – e arqueou uma das sobrancelhas. – Não. Na verdade, só vou tomar uma água e voltar para o quarto. – por fim, rumou para as escadas. – Esse dia foi longo e estou com uma puta dor de cabeça.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Moonlight - Capitulo Vinte e Três

Dois dias depois...
As órbitas de safira acompanhavam atentamente a cada palavra dos contos escritos por seus alunos, enquanto um sorriso curto transparecia em seus lábios finos. Baekhyun se empolgava e se surpreendia com a criatividade deles a cada novo parágrafo lido; independente se fossem histórias clichês ou inéditas, não havia como ele e Edward não se divertirem com tudo aquilo. Ambos os professores – de História e Literatura, respectivamente – encontravam-se na sala dos professores, juntamente com outros colegas de trabalho, que discutiam naquele sábado de manhã sobre as mudanças naquele semestre.
_ O que tanto vocês dois conversam? – questionou Aaron, se aproximando dos outros dois, que desviaram os olhos para o professor de Geografia.
_ Estamos lendo os contos que os alunos escreveram. – disse Baekhyun, exibindo alguns textos ao homem de olhos claros, e logo Benjamin e Andrew também se aproximaram. – Ed e eu pedimos para que eles escrevessem algum conto sobre vampiros.
_ Uau... – Aaron riu empolgado, lendo atentamente um dos contos em suas mãos.
_ Eles têm uma criatividade e tanto, hein? – riu Edward, ao que Baekhyun concordou. Realmente, a imaginação daqueles garotos não podia ser medida.
_ Senhores, podemos voltar à reunião? – pediu o Diretor Thompson, fazendo o quinteto desviar os olhos para o senhor de olhos verdes e cabelos discretamente grisalhos. Apesar de possuir seus consideráveis 59 anos, nem mesmo parecia que aquele homem havia envelhecido tanto, já que “o divórcio havia arrancado quase tudo dele”. Segundo Aaron e Edward, o diretor da Instituição ainda chamava a atenção de muitas das professoras, como a Srta. Vicent de Física e a Srta. Granger de Matemática. Porém, antes mesmo que ele continuasse a conversa, uma batida na porta soou, fazendo a professora de Matemática se levantar e abrir. – Bem, em poucos dias, nós...
_ Com licença, Diretor Thompson. Desculpe interrompê-lo. – pediu a moça, desviando os olhos para Baekhyun. – O bibliotecário Park está esperando você do lado de fora, Sr. Byun.
Não demorou muito para que o moreno desviasse os olhos para o homem que suspirou arrastado, alegando que ele não devia demorar muito, tornando ao assunto. Edward, que estava ao lado do jovem Byun, desejou-lhe boa sorte, vendo-o assentir e deixar a sala em silêncio. No segundo em que fechou a porta, a fisionomia de Richard surgiu ao seu lado com um olhar preocupado estampado em seu rosto. Baekhyun nada comentou sobre o que viu e gesticulou para que o maior lhe acompanhasse até o fim do corredor. Afinal, ele não gostaria de que os seus colegas de trabalho ouvissem sua conversa com... O outro.
_ Eu te liguei ontem, mas você não me atendeu. – começou Richard, enfiando as mãos nos bolsos e engoliu em seco. – Eu sei que está me evitando, Baekhyun, mas...
_ Já que sabe, então não preciso explicar, certo? – rebateu, ameaçando retornar para a sala dos professores.
_ Espera. – o impediu, segurando seu pulso e retirou uma caixinha pequena do bolso de seu grosso casaco, entregando-lhe. – Eu... Sei que seu aniversário já passou há algum tempo, então...
Desconfiado, Baekhyun pegou a caixinha preta e a abriu, arqueando a sobrancelha levemente surpreso e suspirou arrastado. No fundo, não esperava aquela atitude do maior, pelo menos, não depois do que aconteceu entre eles. Por fim, o moreno fechou a caixinha e negou com a cabeça, devolvendo o presente. Richard desviou gradativamente a atenção da face alheia para o objeto em sua mão, confuso com a resposta do menor: por que ele estava recusando aquela aliança?
_ Com licença. – murmurou o moreno, afastando-se novamente.
_ Espera. – e mais uma vez, Richard se meteu na frente do homem. – P-por que...
_ Qual maldita parte do “eu estou noivo” você não entendeu, seu idiota? – era notável no tom alheio a intensidade de sua raiva. Richard baixou a cabeça em resposta, arrumando os óculos no rosto e voltou a encará-lo. – Que merda, Park! Por que continua me seguindo para onde quer que eu vá?
_ V-você... – e crispou os lábios, nervoso. – Ainda está com raiva, não é? – em resposta, Baekhyun bufou, revirando os olhos. Será que ele precisava desenhar para o maior que não o queria por perto? – Olha... – Richard engoliu em seco, enquanto remexia na caixinha, como se procurasse as palavras certas para explicar. – Eu... Eu não estou te pedindo em casamento... Eu só...
_ O que? – questionou.
_ Queria que você ficasse com ela... – e estendeu-a. – Como prova de que nos conhecemos. – logo, o maior sorriu fraco. – Eu já conversei com o Diretor Thompson sobre a minha viagem... É que eu vou voltar para a Coréia do Sul e... Talvez não nos vejamos mais, então...
_ Você... Vai embora? – arqueou uma das sobrancelhas.
_ É. – assentiu, baixando novamente a cabeça. – Eu recebi uma ligação da minha mãe, me dizendo que meu pai... – e calou-se. – Acabou de falecer.
Baekhyun franziu o cenho, permanecendo em silêncio e encarou aquelas órbitas castanhas por longos minutos. Durante esse tempo, Chanyeol retribuiu a intensidade do olhar, reprimindo um suposto choro no fundo da garganta. Além do mais, ele ainda estava fora de si desde a noite em que assistiu Minseok assassinar Changmin diante de seus olhos. Aquele combate, contra a sua vontade, estava atravessado em sua garganta seca. E o jovem professor notou que o outro não estava mentindo para si.
_ Meus pêsames. – murmurou Baekhyun, baixando o olhar.
_ Obrigado. – agradeceu com um sorriso fraco e devagar, abriu os braços. – Bem, já que você não vai ficar com o meu presente... Posso pelo menos receber um abraço?
O moreno o olhou por algum tempo e suspirou, aproximando-se devagar. Por fim, cercou os braços em torno dos ombros de Chanyeol, enquanto este lhe abraçava a cintura, afundando o rosto em seu casaco. No entanto, no segundo em que o maior aspirou o cheiro de colônia masculina da pele alheia, um odor estranhamente familiar invadiu suas narinas e instantaneamente, as lembranças de uma noite chuvosa retornaram com força total para a sua mente. Seria possível que Baekhyun estivesse com... Porém, antes mesmo que pudesse cogitar alguma ideia, os braços do menor o soltaram, enquanto se afastava um pouco do grandão.
_ Boa viagem de volta. – desejou o moreno, suspirando pesadamente.
Em segundos, Chanyeol conseguiu colocar a caixinha no bolso do casaco de Baekhyun sem que este percebesse e afastou-se em passos largos, vencendo rapidamente a distância entre o local que estavam e a saída. Numa interpretação exagerada de que não queria que o outro lhe visse chorando. O moreno o observou desaparecer em seu campo de visão e ao enfiar a mão nos bolsos, notou que havia uma caixinha ali. Ah, maldito Richard que colocou a aliança em seu casaco! Um suspiro arrastado deixou seus lábios, fazendo-o balançar a cabeça em negação e retornar em passos lentos para a sala dos professores.
Todavia, antes mesmo que tocasse a maçaneta, seu celular vibrou em seu bolso, fazendo-o pegá-lo e examinar a tela.
_ Baekhyun. – respondeu. – No mesmo horário, Kyungsoo. – e assentiu. – Certo. E... – logo, engoliu em seco. – E Minseok, como está? – enquanto ouvia as palavras alheias, seus olhos se desviaram para seus pés. – É bom saber que ele acordou finalmente. Me avise quando tiver qualquer novidade. Até mais. – por fim, desligou.
Devagar, o moreno guiou a mão ao próprio peito, enquanto um sorriso curto se formava em seus lábios. Finalmente, ele poderia descansar em casa.

_ Agora... Olhe para cá. – pediu Eunjung, erguendo o indicador e acendeu uma lanterna contra as safiras brilhantes do líder da Ordem. – Ok. – concordou, após o fim dos exames. – Você só precisa descansar um pouco mais e, por favor, não remova a máscara, ok? Seus pulmões ainda não são capazes de trabalhar sozinhos. E tente não se mover ou vai acabar quebrando os pontos.
Num piscar, Minseok desviou as órbitas brilhantemente azuladas para a médica que engoliu em seco e, de leve, assentiu, descansando a cabeça no travesseiro. Desde que despertou naquela manhã estranhamente ensolarada, o dono das madeixas acinzentadas parecia cada vez mais ansioso com o transitar das pessoas em seus aposentos. Se ele não estivesse enganado, Jongdeok, Eunjung, alguns caçadores, três ou quatro ‘recrutas’ – nesse caso, o mais velho não sabia dizer exatamente quantos foram –, alguns enfermeiros e até o próprio Kyungsoo apareceram em seu quarto. E antes mesmo da Médica-Chefe lhe examinar completamente, o Príncipe visitou a Ordem, apenas para garantir que o outro estava vivo e são.
No entanto... Apenas uma pessoa, na qual Minseok ansiava em ver, ainda não havia aparecido em seus aposentos.
Logo, Eunjung deixou o cômodo, onde Jongdeok adentrou acompanhado de Yixing que mesurou longamente em respeito, sorrindo largo. Minseok encarou o chinês por alguns minutos, sem sequer desviar os olhos para o Chefe dos Caçadores, que conversava consigo sobre as últimas novidades, e subitamente o silenciou com um erguer suave da mão. O moreno, que tanto se parecia com Jongdae, franziu o cenho ainda calado e observou o gesticular do Mestre, que lhe pedia para ficar às sós com o Chefe dos Zeladores. Relutante, o homem concordou, curvando-se breve e deixou o quarto, fechando as portas atrás de si.
Ainda em silêncio, Yixing desviou os olhos da entrada para o homem sobre a cama, apenas se aproximando quando Minseok gesticulou para que o fizesse. O chinês se acomodou no espaço vazio do colchão e aproximou o ouvido do rosto magro do dono das safiras, respirando fundo. Num movimento lento, o líder da Ordem afastou a máscara de ar e engoliu em seco, desviando a atenção para o amigo.
_ Só... Responda... – murmurou rouco e Yixing concordou. – O que eu vi... Naquela noite... Foi exatamente... O que pensei... Ter visto?
Por fim, Minseok devolveu a máscara ao rosto e relaxou na cama, enquanto o loiro pensava por longos minutos. Os Netunos brilhantes avaliaram atentamente as feições suaves e o sorriso tímido do chinês que virou toda a sua atenção para o homem, até que o Mestre engoliu em seco ao ver Yixing assentir veementemente, sem proferir uma única palavra. Então, o que viu há duas noites não foi uma ilusão de sua mente já confusa. No entanto, a pergunta que permanecia na mente do líder da Ordem era: como seria possível aquele homem retornar dos mortos?
_ Meu Senhor... – começou Yixing. – Por hora, não pense em nada e descanse. – e, ao se levantar da cama, ele estalou os dedos, como se lembrasse de algo. – Ah! Antes que eu me esqueça... Acho que o senhor merece saber disso: Baekhyun visitou a Ordem. Durante todo o tempo em que o senhor esteve em coma, seu irmão mais novo permaneceu aqui, cuidando de tudo. – em resposta, Minseok arqueou uma das sobrancelhas, arrancando uma risada baixa do loiro. – Eu sei o que está pensando: que é impossível de acreditar que Baekhyun viria por sua causa. Mas acredite quando digo que ele ficou extremamente furioso e decepcionado com Jongdae, por este não ter feito nada para protege-lo.
Devagar, Minseok baixou os olhos, levemente pensativo. Não demorou muito para que Yixing se despedisse, explicando que Kyungsoo já o avisara sobre seu despertar e que o deixaria descansando a partir daquele momento, saindo do quarto em seguida. Lentamente, as safiras vagaram pelo grandioso cômodo e seu próprio corpo, enquanto avaliava suas condições: seu braço estava engessado, seu abdômen estava suturado e enfaixado, além da insuportável dor de cabeça lhe incomodar bastante... Realmente, lutar contra Changmin não foi uma tarefa fácil, mas estava orgulho por ter encerrado aquele assunto que perdurava há vinte anos.
Entretanto, por mais que quisesse se distrair com qualquer coisa que aparecesse aos seus olhos ou mesmo descansar – segundo às ordens de Eunjung –, sua mente ainda retornava para o homem de madeixas escuras, olhos pequenos e lábios finos. Por que raios Jongdae não passava por aquela porta e lhe distraia? Ele não era nenhum louco que havia escapado de um manicômio, por mais que aparentasse ser, já que havia grandes olheiras em baixo de seus Netunos e sua tez encontrava-se mais pálida do que o natural. Impaciente, Minseok retirou a máscara de ar, soltando o grampo – que monitorava seus batimentos cardíacos – de seu dedo e afastou os lençóis, enquanto se arrastava devagar para fora da cama. A calça de moletom era a única peça que cobria todo o seu dorso. Com calma, tentou ficar de pé, porém seu cérebro não teve tempo suficiente para absorver o sangue que se espalhava por seu corpo, provocando uma leve tontura em seu consciente.
E, antes mesmo que fosse ao chão, Minseok foi sustentado por uma segunda pessoa que respirava próximo ao seu ouvido. Não era necessário muito para identificar o ser que o segurava. Somente o cheiro amadeirado o denunciava. Devagar, a atenção do líder da Ordem se desviou para o outro, reconhecendo o maxilar estreito e aquela boca que, no passado, tomou com tanto prazer – e não hesitaria duas vezes em repetir o que fizera às vésperas da batalha – para si. Assim que suas safiras alcançaram as semelhantes escuras de seu Mordomo, o homem de madeixas acinzentadas engoliu em seco, sendo acomodado novamente na cama.
_ Eunjung o alertou de que deveria descansar, meu senhor. – Jongdae ditou, recebendo como resposta, a atenção dos olhos intensamente brilhantes e azuis. – Por que não tenta descansar um pouco?
Jongdae o deitou em seu leito, cobrindo-lhe com os lençóis e arrumando os travesseiros atrás do mais velho. Minseok o assistiu em silêncio durante todo o trabalho e antes mesmo que o moreno se afastasse, seus dedos seguraram-lhe o pulso. Ele não queria que o outro partisse. Não depois de tanto tempo longe. Em resposta, o Mordomo desviou os olhos para o líder, enquanto seu coração parecia quebrar sua caixa torácica, tamanha velocidade e força em que pulsava em seu peito, por mais que nada demonstrasse visualmente. Devagar, o dono das madeixas acinzentadas baixou os olhos para o pulso e soltou-o devagar, entrelaçando timidamente seus dedos aos semelhantes alheios.
Minseok sentia falta daqueles dedos lhe arranhando as costas ou simplesmente segurando seus cabelos.
_ Senhor... – chamou o Mordomo, ainda hesitante, enquanto Minseok tornava a olhá-lo. – Deseja algo?
_ Q-quanto tempo... – murmurou baixo. – Eu estive... Apagado?
_ Aproximadamente, um mês, senhor. – explicou.
Minseok sabia disso. Afinal, Eunjung o avisara quando acordou.
Porém... Ele queria ouvir dos lábios do mais novo.
_ E... – piscou devagar. – Você... Está bem?
_ A situação na Ordem está um pouco tensa, mas...
_ Eu me referia... – interrompeu. – à você.
As pérolas negras encararam por longos minutos as safiras brilhantes que retribuíam a intensidade do olhar. Jongdae podia notar, através dos olhos de Minseok o tamanho de sua preocupação ao lhe entregar uma tarefa tão difícil de ser concluída. Em silêncio, o mais velho puxou-o para que sentasse ao seu lado na cama e, ao fazê-lo, gesticulou para que se aproximasse. O Mordomo alternou a atenção entre os Netunos e os lábios finos de seu Mestre, enquanto lhe explicava baixinho sobre as atuais condições da Ordem.
Mas, Minseok não estava interessado na Instituição.
Ele estava interessado em seu seguidor.
Não demorou muito para que o silêncio preenchesse o grandioso quarto. A troca intensa de olhares parecia destruir a lógica dos pensamentos do moreno, que, gradativamente, baixava os olhos para as mãos ainda entrelaçadas. Por que Minseok não dizia nada? Por que continuava o torturando com aqueles Netunos brilhantes? Involuntariamente, Jongdae crispou os lábios, engolindo em seco e, ao voltar sua atenção para a face alheia, avistou um sorriso curto transparecer seus lábios. Por acaso, havia alguma graça em tudo o que ele contou?
_ Senhor... – murmurou.
_ Eu senti a sua falta.
E antes mesmo que alguma palavra soasse de seus lábios finos, sua boca foi capturada pela semelhante alheia num selar delicado. Minseok sugou-lhe o lábio inferior, aproximando-se cada vez mais da face alheia e aprofundou o ósculo, friccionando os pequenos músculos. Devagar, Jongdae devolveu o mais velho aos travesseiros e colou seu peito ao outro, enquanto deslizava os dedos pela maçã do rosto e pelos cabelos acinzentados. Era impossível de acreditar que seu Mestre estava lhe beijando.
O cheiro amadeirado preencheu suas narinas, afundando-se cada vez mais naquele beijo, sem sequer se importar se alguém os vigiava ou não. Minseok mordiscou a boca alheia com calma, deslizando a língua para dentro da cavidade e a friccionou contra a semelhante de Jongdae, que parecia anestesiado com os toques. Quanto mais agitado e afoito aquele ósculo se formava, provocando estalidos excitantes, mais o casal ansiava em se unir. Até mesmo a mão do mais velho conseguiu abrir alguns botões da camisa de seu Mordomo.
No entanto, antes que aquilo ultrapassasse os limites de consciência do mais velho, o mais novo se afastou, provocando um último estalo das bocas. Minseok abriu os olhos devagar, sem entender o motivo da distância de seu Mordomo, que estava visivelmente confuso. Algo havia acontecido ao moreno que não foi relatado a si? Jongdae baixou os olhos para as mãos em suas vestes e soltou-se, levantando da cama. Em poucas palavras, explicou que ainda tinha afazeres a cumprir – ainda arrumando suas roupas –, caminhando assim para fora do cômodo. Porém, o Líder da Ordem o proibiu, ordenando-lhe para que ficasse ali consigo.
_ Mas, meu Senhor... – começou.
_ Se passar por essa porta, Jongdae... – ditou, ofegante. – Eu o punirei.
O mais novo respirou fundo, ainda avaliando as condições impostas e assentiu de leve, acomodando-se na poltrona. Sendo observado pelas safiras brilhantes, não demorou muito para que o mais velho gesticulasse para que se deitasse ao seu lado na cama. Ainda hesitante, Jongdae o obedeceu, levantando de seu lugar e deitou ao lado de seu Mestre, pousando a cabeça em seu peito, quando este o aninhou ali. Estranhamente, Minseok podia sentir o corpo alheio tremer sob suas mãos, que levemente lhe afagava os cabelos negros.
_ Está tudo bem? – sussurrou, fechando os olhos.
_ Eu... – o que ele diria? Que estava preocupado? Furioso com a nova aparição de uma criatura das sombras na Ordem, bem debaixo do seu nariz? Decepcionado consigo mesmo? Assustado com a possível morte do Líder e ameaça de Luhan? Temeroso com essa nova raça em Londres? Confuso com os sentimentos de Sehun? Tanta coisa havia acontecido naquele período de tempo que Jongdae não tinha certeza do que realmente Minseok queria saber. – Estou bem. – e sorriu fraco.
_ Jongdae. – murmurou, ouvindo-o responder. – Eu estou cogitando em preparar uma festa em homenagem ao meu retorno.
_ Uma... Festa? – desta vez, Jongdae o olhou, notando que o outro parecia ter adormecido. – Senhor?
_ Somente para os caçadores. – sussurrou, sonolento. – Eles... Precisam de descanso...
_ O senhor é quem precisa de descanso, senhor. – sussurrou, afagando seu rosto quando o outro adormeceu.
Jongdae ainda permaneceu alguns minutos nos aposentos de seu Mestre antes de sair e rumar para a cozinha da Ordem. Ali, alguns caçadores e Chefes dos Departamentos conversavam sobre a estranha sensação que tiveram há duas noites. O moreno notou que, em meio a conversa, Yixing parecia perdido em devaneios, enquanto bebericava seu café fumegante. Logo, Eunjung avistou o Mordomo na entrada do ambiente, surpresa com a presença alheia ali.
_ E o Sr. Kim? – perguntou ela.
_ Está dormindo. – respondeu, caminhando até o chinês e recostou-se ao lado deste. – E quanto à minha ordem?
_ Estamos investigando. – disse Jongdeok, olhando-o. – Meus garotos estão rondando por Londres, mas o rastro esfriou.
_ Como pode um vampiro invadir a Ordem sem que notássemos? – murmurou Eunjung.
_ Eu o senti. – alegou Kyungsoo, finalmente se metendo na conversa, já que antes apenas observava os mais velhos conversando. – Estava no corredor quando senti o arrepio.
_ Você não era o único. – Jongdeok o olhou. – O que me surpreende é que aquele que tem por obrigação proteger o Mestre não dar nenhuma resposta quando é chamado. – por fim, desviou os olhos para o irmão mais novo. Porém, Jongdae nada disse em sua defesa. – Se tivesse aberto as portas quando eu chamei...
_ Mas há uma coisa que está me deixando curioso. – Kyungsoo encarou a xicara a sua frente por alguns longos minutos, desviando o olhar para os outros em seguida. – Se realmente era um vampiro, por que ele levou o Sr. Byun e não o Sr. Kim?
_ Seria meio óbvio se levassem o Mestre. – comentou um caçador. – Além do mais, ele estava acamado, então...
_ Talvez fosse Chanyeol. – comentou Jongdeok. – Afinal, aquele demônio está atrás do irmão do Sr. Kim há séculos!
_ Não foi Chanyeol. – disseram Yixing, Kyungsoo e Jongdae simultaneamente, surpreendendo os outros caçadores.
_ Não foi? – questionou Eunjung.
_ O cheiro do vampiro era diferente. – explicou Kyungsoo, desviando os olhos para Jongdae e Yixing. – Mas como vocês sabiam que não era o Chanyeol, já que você – apontou para o chinês. – estava viajando e você – em seguida para o moreno. – trancou a porta do quarto?
E, mais uma vez, permaneceram calados. Yixing, notando o silêncio mórbido do cômodo, deixou transparecer um sorriso infantil em seus lábios finos e justificou que ele havia chegado logo que o sol nasceu e ouviu seus seguidores contarem sobre a aparição da criatura das sombras. Como um deles especificou o odor que o vampiro daquela noite havia exalado, o chinês deduziu que não era Park Chanyeol. Porém, Jongdae não fez menção em explicar. Nem mesmo se deu o trabalho para isso.
_ E você, Jongdae? – incentivou Eunjung. – Por que acha que não era Chanyeol?
_ Por causa do cheiro. – resumiu, cruzando os braços.
_ A questão é que ainda temos que proteger os dois irmãos. – suspirou Jongdeok. – Tanto do Príncipe e Chanyeol, quanto dessa nova raça.
_ Alguma novidade sobre essa nova raça? – murmurou Jongdae para Yixing.
_ Estamos andando em círculos. – suspirou, bebericando novamente. – Aliás, nós encontramos mais dez corpos em Cambridge.
 _ Dez?! – o moreno o encarou surpreso.
_ E isso não é tudo. – negou, afastando-se e pegou o controle da televisão, ligando-o. Logo, Yixing colocou no famoso canal de notícias. – Como não estamos conseguindo contê-los, o Primeiro-Ministro decidiu tomar uma difícil decisão.
E a atenção do grupo se desviou para a televisão, enquanto assistiam o pronunciamento oficial do Primeiro-Ministro da Inglaterra. Segundo o parlamentar, a situação em Londres estava ficando mais complicada do que ele imaginava. No início, ele, juntamente com os oficiais do governo e a Scotland Yard, tentou conter a onda de violência, desaparecimentos e assassinatos cruéis sem o conhecimento da população. Porém, infelizmente, a situação se agravou e tudo o que poderia pedir é que os cidadãos de Londres obedecessem ao toque de recolher para que o número de mortos não subisse. Jongdae não ouviu ao restante do pronunciamento; apenas deixou a cozinha e rumou para o andar de cima, entrando rapidamente nos aposentos de Minseok que também assistia ao anúncio oficial. Quando a fala do Primeiro-Ministro acabou, o homem de madeixas acinzentadas desligou o televisor e desviou os olhos azulados para o moreno que permanecia calado.
_ Tem algo a me dizer? – questionou o líder.
_ Nós nos descuidamos. – sussurrou, baixando a cabeça. – Estávamos mais preocupados com sua recuperação do que...
_ Esqueça isso. – suspirou, largando o controle e levantou da cama, mancando arrastado até a poltrona. Jongdae logo o seguiu e o ajudou a vestir o roupão rubro de seda, lhe entregando a bengala em seguida. – Se lamentar não mudará em nada. – por fim, Minseok caminhou para fora do quarto, onde o moreno o acompanhava devagar.
_ Não devia se esforçar tanto. – alertou-o. – O Senhor ainda está...
_ Eu não posso cruzar os braços enquanto Londres se torna uma ilha vermelha. – o olhou, tornando a caminhar.
_ Mas não tira o fato do senhor estar...
Porém, antes que Jongdae continuasse, Minseok removeu a adaga da bengala e arremessou para frente, sendo prontamente segurada pelos dedos longos de Oh Sehun, que estava acompanhado de um emburrado Jongdeok. O Mordomo do líder alternou os olhos entre os dois homens, notando a frieza nos Netunos brilhantes e aos poucos, o vampiro se aproximou da dupla e devolveu-lhe a arma, sorrindo de leve. Afinal, ele não esperava uma reação rápida do humano que quase foi morto por Changmin e estava surpreso por isso.
_ Me surpreende sua visita sem a companhia de seu... Mestre. – começou Minseok. – Assim como fiquei surpreso com Luhan sem sua... Sombra.
_ Muitas coisas aconteceram no período em que esteve em coma, Sr. Kim. – explicou. – Coisas... – e desviou os olhos para Jongdae que cerrou o semblante. – Bastante interessantes ao meu ver.
_ E qual seria o motivo de sua visita? – estreitou os olhos.
_ O pronunciamento do Primeiro-Ministro. – foi direto. – Creio que deve ter assistido, não?
_ Assisti. – afirmou.
_ Bem. – suspirou, se aproximando um pouco mais. – Então, eu acredito que devamos conversar às sós. O que acha?
_ Por que não? – Minseok sorriu de leve, caminhando em direção ao seu escritório. No entanto, quando Sehun o seguiu, o líder se adiantou. – Você também, Jongdae.
Jongdeok desviou os olhos para o irmão mais novo que apenas respirou fundo, acompanhando os dois homens. Além do mais, nem ele estava preparado para aquela conversa. Logo, Minseok adentrou seu escritório, seguindo até sua mesa e esperou a entrada dos outros, ao que Sehun sentou-se no sofá e Jongdae permaneceu próximo à entrada, fechando a porta atrás de si.
_ Você não disse nada a ele, não é? – começou Sehun, desviando os olhos para Jongdae que encarou seu Mestre. Minseok alternou os Netunos brilhantes entre os homens que pareciam manter uma conversa particular. – Sobre o que conversamos.
_ Você poderia começar contando sobre o que descobriu... Sehun. – Minseok o olhou.
_ Eu gostaria muito de ouvir isso de vosso Mordomo, Sr. Kim. – o ruivo sequer se virou para o homem de madeixas acinzentadas. – Mas eu atenderei ao seu pedido.
E, assim, Sehun revelou tudo sobre sua investigação, desde as primeiras mortes estranhas até aquele exato momento. Minseok ouviu a tudo atentamente, sem o interrompê-lo, mesmo que as dúvidas estivessem esquentando sua mente rápida, enquanto o ruivo continuava sua fala. Mais afastado, Jongdae encarava os dois superiores por algum tempo, temendo que o vampiro relevasse o ponto principal daquela conversa: sua traição para com seu Mestre.
_ Eu sabia que havia algo de errado, por isso, decidi, juntamente com seu Mordomo, visitar uma boate próxima daqui. – e voltou a atenção para o moreno que lhe encarava. – E, depois de verificarmos, nós suponhamos que esses Adoradores da Lua estão instalados aqui a mais tempo que imaginamos.
_ Certo. – assentiu Minseok, pensativo e desviou as safiras para o seu seguidor. – Então, como me explica sobre seu retorno sem seu casaco? – mas antes que Jongdae respondesse, Sehun se adiantou:
_ Ele me emprestou. – ao ditar, Jongdae fechou os olhos e Minseok arqueou uma das sobrancelhas. – Devido ao ataque naquela noite e a destruição das minhas roupas, Jongdae fez essa “gentileza” de me emprestar seu casaco.
_ Entendo... – murmurou o mais velho, voltando sua atenção para o Matador. – Há algo que queira acrescentar?
_ Sobre os Adoradores? – e pensou um pouco. – Não. Creio que não. De qualquer forma, eu preciso continuar minhas pesquisas. – logo, Sehun se levantou, aproximando-se de Minseok e mesurou em respeito. – Ah! – o ruivo o olhou, como se lembrasse de algo que havia esquecido. – Há algo que eu quero lhe dizer, Sr. Kim. – finalmente, aproximou seus lábios do ouvido alheio, ao mesmo tempo que seu semblante se fechou. – Não pense que salvei sua vida por causa de meu Mestre ou por pena. Eu o salvei por causa de Jongdae e por que me importo com ele.
Minseok desviou os olhos para o vampiro que sorriu de leve e acenou com a cabeça, deixando o escritório em seguida. Jongdae acompanhou a passagem do vampiro até a porta se fechar e ao voltar sua atenção para seu Mestre, o mesmo mantinha uma fúria estampada não apenas nas safiras, mas em seu maxilar travado também. No fundo, algo lhe dizia que o líder da Ordem não estava nada feliz com esses segredos escondidos.
_ Senhor... – Jongdae tentou se justificar, porém se calou.
Afinal, o que ele teria a dizer?
E antes que o líder da Ordem proferisse alguma palavra, uma batida na porta soou do outro lado, fazendo-os desviar a atenção para a entrada. Com o relutante consentimento de Minseok, Jongdae abriu a porta, surpreendendo-se com a aparição do moreno de olhos azulados e sorriso retangular. Rapidamente, o Mordomo se afastou, ao que o mais velho piscou devagar, enquanto o jovem Baekhyun adentrava o cômodo e rumava até o irmão.
_ Sr. Byun... – murmurou Jongdae.
_ Baekhyun, o que está... – começou Minseok, sendo interrompido.
_ Saia Jongdae. – pediu o professor, sem desviar os olhos do irmão.
Jongdae alternou os olhos entre os irmãos Kim – ou Kim e Byun – por alguns segundos, ao que o menor se virou para si, encarando-o. E, de imediato, o Mordomo saiu do escritório, permanecendo apenas os filhos de Baekhyung, que se entreolhavam por longas horas até Baekhyun suspirar e caminhar até o sofá, sentando-se ali.
_ Kyungsoo me disse que você acordou. – começou ele, cruzando as pernas. – Como se sente?
_ Melhor. – respondeu breve.
_ Agora, pode me responder uma coisa? – ao ditar, Minseok murmurou “já respondi”, vendo um sorriso fraco estampar o rosto de Baekhyun... Antes do mesmo gritar. – O que raios deu em você para tentar se matar?!
Se Minseok dissesse que não havia se assustado com o surto do mais novo... Ele estaria mentindo.
E a discussão não parou por aí. Baekhyun reclamou de tudo o que aconteceu no meio período em que o irmão esteve em coma, sem tirar o fato de ter se enfurecido com Yixing por este tê-lo feito dormir contra a vontade – apesar de sua atitude ser a mais correta naquele momento – e com Jongdae que, além de mentir sobre a situação de Minseok, omitiu a informação do mesmo estar acamado. E principalmente, o jovem professor estava enfurecido com o líder da Ordem por este não ter lhe dito absolutamente. O homem de madeixas acinzentadas ouviu a tudo em silêncio, baixando a cabeça e sorriu de leve, voltando os olhos para o mais novo. Ele entendia o desespero do irmão. Por fim -  toda a “conversa” durou aproximadamente duas horas –, o moreno ofegou, soluçando baixinho e jogou-se no sofá, bloqueando a visão com a palma da mão. Silenciosamente, suas lágrimas escorreram por seu rosto choroso, enquanto o reprimia no fundo da garganta.
Em passos lentos, Minseok se aproximou do irmão e sentou na borda do sofá, bagunçando seus cabelos, enquanto respirava fundo. Yixing não mentiu em momento algum. Com algum esforço, o líder da Ordem afastou a mão dos olhos de Baekhyun e encarou aqueles mares azulados se desmancharem em lágrimas salgadas, desaparecendo em suas madeixas escuras.
_ Ficou com medo de me perder? – não era um comentário engraçado. Em resposta, Baekhyun assentiu e Minseok o puxou para um abraço forte, enquanto alisava seus cabelos macios. – Desculpe por assustá-lo, Baekhyun.
_ Faça isso de novo e quem irá mata-lo será eu. – murmurou abafado. Rapidamente, ele enxugou as lágrimas, fechando os punhos contra o roupão vermelho do mais velho. – Eu... Realmente achei que não fosse sobreviver.
_ Sabe que sou duro na queda, não sabe? – brincou, ouvindo a risada baixa do menor. – Mas... Eu também fiquei com medo de não sobreviver.
E as lembranças do estranho sonho que teve há algumas noites retornaram aos seus pensamentos.
Jongdae completamente entregue aos beijos e toques... De Oh Sehun.
_ Prometa-me que não vai fazer isso de novo. – ordenou Baekhyun.

_ Não vou. – sorriu fraco, olhando-o em seguida. Logo, afagou seu rosto molhado. – Eu prometo.