sábado, 8 de abril de 2017

Moonlight - Capitulo Trinta e Um

Já fazia alguns séculos desde que Luhan participou do último julgamento de um Príncipe. Contudo, aquela era a sua primeira vez como réu. Mal havia anoitecido, a movimentação no interior da mansão da Máscara cresceu drasticamente. Recém-abraçados, antigos vampiros e líderes de todos os clãs se dirigiam tranquilamente para o subsolo da construção, a fim de assistir a épica acusação contra o novo príncipe. O castanho respirou fundo, desviando os olhos para o seu “advogado de defesa”, que estava bem acomodado em sua poltrona.
_ Sr. Nicodemos... – começou Luhan, vendo-o mover as orelhas pontudas. – Quem mais virá a audiência?
_ Bem... – suspirou, iniciando. – Dimitry e Laurence já devem estar chegando da Rússia e Louis deve vir da França... E claro, meu odiado parceiro, Vladimir.
_ Por que odiado?
_ Vladimir tinha uma enorme ambição sobre a hegemonia dos vampiros. – explicou. – Não será uma surpresa se ele estiver do lado daquele filhote de barata. Por isso, peço que fique atento, Luhan. Ele é um Nosferatu que não se deve confiar.
_ Sim, senhor. – concordou, se aproximando. – E, sr. Nicodemos, sobre o que o senhor havia dito em relação a Kim Minseok... – desta vez, o Príncipe notou um sorriso largo do antigo, que abriu os olhos e desviou toda a sua atenção para si. – Que maldição é essa?
_ Luhan, essa é uma história notavelmente longa de se contar, cheia de mistérios e controvérsias. – suspirou. – Mas vejo que seu interesse maior por ela parece... Consumi-lo. Pois bem. Irei contar a verdade.
“Há alguns milênios, quando os primeiros indícios de civilização surgiram, os Nosferatus viviam às sombras. Creio que tenha lido sobre a nossa existência; que fomos nós que criamos os outros clãs da Máscara antes da mesma existir e fomos criados por alguém superior. Contudo, o que não está escrito no livro eterno é que, antes de vocês, existia um outro clã. Nosso primogênito, os Lazulli. Os chamávamos assim por que... Estranhamente, suas irises atribuíam uma tonalidade azulada tão forte e viva que encantava e assustava qualquer um que os encontrasse”.
“Houveram muitos relatos de humanos, alegando que já viram homens ou mulheres com estranhos e chamativos olhos azuis. Nunca nos apegamos tanto com um clã quanto com eles. Vladimir, assim como eu, estava tão fascinado com a nossa criação que decidimos criar outros novos clãs. E, com o passar dos séculos, os outros vieram: Ventrue, Gangrel, Toreador e muitos outros que não se atribuíram aos nossos costumes. No entanto, os Lazulli pareciam desgostar desses outros clãs que surgiram. Talvez fosse ciúme de irmão mais velho, eu nunca entendi”.
“Para que entenda melhor a nossa admiração por tal clã, eu irei explicar: para cada Nosferatu maduro e adulto, tinha aproximadamente quatro ou cinco Lazulli sob seu comando. E, na época, nós éramos em torno de 50. Já deve imaginar quantos existiam, não? Foi então que o pior aconteceu. Os Lazulli se tornaram um clã rebelde e iniciaram uma matança sem fim. Se houvesse uma comparação de vítimas, As Cruzadas, a Inquisição e a Peste Negra não chegariam aos pés da caçada deles”.
“Em resposta a toda destruição, os outros clãs, juntamente com alguns Nosferatus, decidiram abrir uma caçada de sangue contra os Lazulli. Foi uma enorme perda para muitos de nós. Tanto eu, quanto Vladimir não suportou a dor e ainda tentamos manter alguns dos nossos escondidos. Eu tive mais sorte pois um dos meus não estava nessa caçada, enquanto que os de meu amigo estavam todos. De todo o clã, apenas houve um único sobrevivente: o meu adotado. Eu implorei aos Nosferatus sobreviventes para que não o matassem, já que ele nada tinha a ver com a decisão dos outros. Muitos discordaram e tentaram mata-lo, contudo... Meu garoto sobreviveu e eu o mantive escondido por muito tempo”.
“Interessante perceber que, por mais que desejamos proteger aquele que amamos, mais arriscado fica a sua vida. Tentei mantê-lo, durante longos e incontáveis anos, longe dos humanos e da civilização. E por esse tempo funcionou até que... Ele se apaixonou. Eu sempre soube que nossa atração pelos humanos se resumia a sangue, porém, ele me provou do contrário, alegando que sim, os vampiros podiam se apaixonar. Lembro-me, como se fosse ontem, suas feições coradas, os olhos brilhantemente preocupados... E atrás de si, uma jovem”.
“Lhe falei que aquilo não era certo. Claro que ele não me ouviu. No entanto, lhe fiz prometer que não tentaria dar a ela uma criança, afinal, um mestiço vindo da união de um Lazulli com um humano poderia resultar numa catástrofe. E, como dito anteriormente, ele não me ouviu. Os outros Nosferatus se reuniram e protestaram contra a atitude dele. Mas o que podíamos fazer quando sua filha de apenas um ano... Era tão bonita quanto o pai? Eu imagino, Luhan, a sua reação ao encontrar, pessoalmente, os olhos de Kim Minseok. Deve ter ficado bastante impressionando, não acha? E foi exatamente assim que nós seis nos sentimos ao ver a pequena nos braços de seu pai”.
_ Que nome ele deu a ela?
_ Sohee. – respondeu. – Ahn Sohee, o que é estranho, já que o certo seria ela carregar o sobrenome do pai.
_ Sr. Nicodemos. – ambos desviaram os olhos para a entrada, onde Aliah curvou-se graciosamente para os dois, sorrindo de leve. – O julgamento irá começar.
Luhan foi o primeiro a se erguer, seguido de Nicodemos, que desceram as escadas da mansão, rumando para o subsolo. Durante todo o trajeto, o silêncio mórbido preencheu o ambiente lotado, enquanto incontáveis pares de órbitas avermelhadas fitavam atentamente a chegada dos dois seres. O Príncipe olhou rapidamente por dentre os convidados, avistando Chanyeol ao lado de Vladimir, que tamborilava os dedos contra a mesa. Mais à frente, Louis assistia à chegada os dois vampiros, que se acomodaram em seus lugares.
_ Senhoras e senhores, boa noite e bem-vindos ao julgamento do 435° Príncipe da Máscara Luhan. – começou Louis, olhando para todos os visitantes. – Como muitos ainda não sabem, o Príncipe da Máscara está sendo acusado por não cumprir com as regras da Máscara. Seu acusador, Park Chanyeol, testemunhou oficialmente para os membros do júri e fará o mesmo diante de vocês.
Por fim, o Nosferatu gesticulou para que o maior se acomodasse ao seu lado, que assentiu, levantando-se de seu lugar e caminhou até a cadeira vazia, sentando-se ali, enquanto os outros clãs o observavam. Chanyeol engoliu em seco, desviando os olhos para Luhan por alguns minutos, antes de iniciar seu testemunho, provocando um breve burburinho no subsolo. Até o fim das perguntas e das explicações, o Príncipe permaneceu em silêncio, completamente alheio aos comentários e questionamentos de Vladimir que parecia fuzilá-lo com os olhos. Contudo, talvez o castanho estivesse com razão: havia outros interesses a serem questionados, como, por exemplo, o suposto passado de Kim Minseok.
_ O júri chama a presença do Príncipe Luhan para ser interrogado. – ditou Louis, desviando os olhos para o outro.
Como ordenado, Luhan deixou seu lugar e acomodou-se no mesmo lugar que Chanyeol estava anteriormente. Nicodemos iniciou as perguntas ao castanho que olhava atentamente ao líder dos Gangrels, respondendo-as. Por fim, quando lhe perguntado se era verdade sobre a sonegação de comida aos clãs, o Príncipe riu baixinho.
_ Meritíssimo, eu gostaria de lhes dizer que, a fonte de energia da Máscara pode ser adquirida nos hospitais bancados pela Instituição. – explicou. – Se sentem sede, bastam se dirigir aos hospitais e solicitar uma bolsa de sangue. Agora, sobre a acusação que estou recebendo do Sr. Park não passa de uma simples birra de criança infantil, Meritíssimo.
_ Protesto! – rebateu Vladimir.
_ Meritíssimo, o acusado ainda não terminou. – interveio Nicodemos.
_ Protesto negado. – Louis declarou. – Por favor, continue.
_ Obrigado, Meritíssimo. – agradeceu Luhan. – Mas encerro minha fala por aqui.
_ Já pode voltar ao seu lugar, Príncipe. – decidiu, e Luhan voltou ao seu lugar ao lado de Nicodemos.
E o julgamento continuou acirrado. Especialmente quando os líderes dos clãs se pronunciaram. Luhan assistiu a tudo em silêncio e, como não havia ninguém que pudesse defende-lo – nem mesmo Minseok, já que colocar um humano dentro da Máscara poderia desencadear desavenças contra os vampiros –, o Príncipe apenas esperou. Até que finalmente, Louis pediu para que o júri, comandado pelo porta-voz Dimitry, entrasse num consenso e decidissem se o castanho era culpado ou inocente.
_ Sr. Nicodemos. – chamou Luhan, vendo-o desviar os olhos para si. – E o que houve com a filha de seu preferido?
_ Bem... Ela cresceu. – continuou num tom baixo. – Nosso clã havia determinado que nem ele e nem sua filha poderiam interagir e conviver entre os humanos. No início, foi fácil escondê-los, no entanto... Sohee foi crescendo e amadurecendo... E se tornou tão linda que acabou chamando a atenção de um humano.
“Tentei convencer o pai dela para que não a deixasse se aproximar desse homem e ele o fez. O que nenhum de nós dois – nem eu e nem ele – sabíamos é que Sohee ficou grávida... De gêmeos. Seu pai entrou em desespero, enquanto eu lhe informava que os outros clãs e principalmente, os Nosferatus não a queriam viva pois não queriam que os Lazulli criassem descendentes”.
_ E o que fez para impedir? – questionou.
_ Eu enviei o meu recém-abraçado atrás dela para matá-la sem o conhecimento dele. – respondeu. – Partiu-me o coração ao ver sua tristeza e solidão ao saber que sua filha estava morta e doeu-me ainda mais quando ele decidira partir para longe daquilo.
_ E o enviado... Ele os matou? – o olhou.
_ Eu não sei. – negou, sorrindo de leve e desviou a atenção para o castanho. – O Sr. Kim Minseok se encontra morto agora?
_  Não senhor. – negou.
_ Então, ele não o matou. – concluiu.
_ Senhoras e senhores, agora com o retorno o júri, já podemos sentenciar o Príncipe. – começou Louis, ao que todos desviaram os olhos para o porta-voz. – Qual foi a decisão do júri?
_ O júri decidiu... – começou Dimitry. – Que o 435° Príncipe da Máscara, Luhan, é culpado de sonegação de alimentos para a Máscara. – a resposta surpreendeu a todos os convidados, inclusive Chanyeol que desviou os olhos para Príncipe que continuava calmo. – Contudo, nós entramos num consenso e oferecemos um modelo para o Príncipe, caso ele deseje se redimir pelos seus erros.
_ E qual seria? – perguntou Nicodemos arqueando uma das sobrancelhas.
_ Por ter sido acusado de se dedicar mais aos desejos dos humanos do que os de sua própria raça, o júri decidiu que o senhor, para ganhar um novo voto de confiança... – continuou Dimitry. – o Príncipe deve assassinar o homem que o senhor tanto de dedica. Ou seja, o senhor deve matar Kim Minseok, líder da Ordem dos Caçadores. – declarou, ao que Luhan franziu o cenho e Chanyeol sorriu discretamente. – Caso contrário, o senhor deve abandonar o cargo de Príncipe da Máscara, para que uma nova eleição seja feita e um novo Príncipe se ascenda.
Luhan lentamente ficou de pé e vagou os olhos por todos os presentes, balançando lentamente a cabeça. Por fim, uma risada baixa que, gradativamente, crescia escapou de seus lábios, preenchendo todo o subsolo da mansão, enquanto todos os vampiros hesitavam. Era difícil saber se ele estava rindo de uma piada ou debochando da decisão. Chanyeol desviou os olhos para o castanho que estava no centro do salão, enquanto seus punhos se fechavam debaixo da mesa.
_ Vocês não entendem.... Não é? – e os olhou. – Vocês vivem reclamando de sede saciada, preocupados e chateados pelo simples fato de eu me importar com o Líder da Ordem dos Caçadores. Mas vocês não entendem o que estão me pedindo. Não entendem por que são burros... – logo, desviou os olhos para Chanyeol. – Principalmente você, Chanyeol. Tudo o que lhe interessa é ter o irmão de Kim Minseok em seus braços, apesar de eu não entender essa finalidade. E como vocês não entendem, eu vou lhes explicar por que essa decisão é a mais imprudente.
“Há alguns meses, uma nova raça se instalou em Londres. E acreditem quando digo que eles são nossos inimigos desde os tempos antigos. Tanto eu, quanto meu Matador e a Ordem dos Caçadores estamos tentando entender o proposito dessa raça. Sei que muitos não acompanham os pronunciamentos do Primeiro-Ministro, mas muitas das mortes e cadáveres destruídos em alguns pontos da Inglaterra foram provocados por eles”.
_ O que está querendo insinuar, Luhan? – Vladimir franziu o cenho. – Está tentando nos contar uma história de terror, sendo nós, os vilões?
_ Estou lhes contando a verdade. – em resposta, Luhan abriu a própria camisa de botões e expôs seu corpo, surpreendendo os outros. – Estão vendo essa marca em meu abdômen? – apesar de um olhar humano não perceber, os vampiros viam claramente os detalhes da marca. – Durante o blackout em Londres, eu verifiquei a subestação da cidade e fui atacado por eles. – por fim, seu olhar baixou para o chão. – Se não fosse Sehun, eu estaria morto.
_ Aonde quer chegar? – Louis questionou.
_ Vocês me deram uma única alternativa: assassinar Kim Minseok. – os olhou. -O que vocês não sabem é que, provocando a morte dele, ou a minha, a Máscara e a Ordem entrarão numa guerra tão sangrenta que, os poucos sobreviventes evitarão escrever ou sequer falar sobre ela.
_ Está exagerando. – Chanyeol comentou e Luhan o encarou. – Todos nós sabemos que a Ordem foi o equilíbrio entre os humanos e a Máscara. Eu sei mais do que ninguém...
_ E também deve saber que foi seu pai quem começou tudo isso, não sabe? – interrompeu-o e Chanyeol engoliu em seco. – Ou se esqueceu que o próprio Park Changmin provocou a morte de Kim Baekhyung? E agora, 20 anos depois, você quer provocar a morte do filho mais velho, Kim Minseok, por que Byun Baekhyun lhe chamou a atenção!
Um novo burburinho começou, ao que os Nosferatus se pronunciaram para que se calassem. Luhan caminhou devagar na direção do gangrel, apoiando as mãos sobre a mesa e inclinou-se na direção do outro.
_ Eu sei que você só quer Baekhyun por que ele o lembra de seu passado, não? – sorriu debochado. – Por que Baekhyun lembra Baekhyung. E para tê-lo, você teria que tirar o seu irmão mais velho do caminho. Agora, você sabe por que seu pai matou Baekhyung, Chanyeol?
Chanyeol o encarou por longos minutos, ao que Luhan se afastou, se virando para o juiz e curvou-se graciosamente, alegando que cumpriria o acordo proposto. Contudo, pediu duas semanas para preparar os documentos corretos e avisar ao Líder da Ordem dos Caçadores sobre o combate mortal. E, sem proferir mais uma palavra, o castanho deixou o lugar, atravessando os corredores rapidamente e, logo que chegou em sua sala, fechando as portas, as mesmas se abriram, revelando o maior um tanto nervoso.
_ O que sabe sobre aquela noite? – questionou, vendo-o encarar a janela. – Diga-me! – gritou. – O que sabe daquela noite?!
_ Eu sei muito mais do que você, Chanyeol. – e o olhou. – Agora, retire-se da minha sala. Irei preparar os documentos e as cartas e não quero ninguém aqui.
_ Só saio daqui se me disser por qual motivo meu pai o matou! – rebateu.
_ Mesmo? – riu debochado, estreitando os olhos. – Acredite, pelo mesmo motivo que os outros deram-me aquela escolha. Agora, saia.
Antes que Chanyeol continuasse com suas perguntas, Dimitry e Louis o levaram para fora, enquanto Vladimir, Nicodemos e Laurence adentraram, curvando-se brevemente. Não demorou muito para que os outros dois também entrassem, permanecendo assim os cinco grandes e antigos Nosferatus. Cada um deles se acomodou num lugar, enquanto Luhan se recostava a sua mesa, enfiando as mãos nos bolsos. Nem mesmo sua camisa foi abotoada quando os membros do clã apareceram.
_ Luhan. – começou Laurence. – Queira nos dizer o que está acontecendo na Máscara e em Londres que não sabemos.
E Luhan o fez. Revelou sobre tudo o que sabia e o que seu Matador havia descoberto. A chegada deles, o ataque na subestação... Toda a informação sobre os lobisomens, o Príncipe contou ao clã que ouviu atentamente, surpreendendo-os. Revelou-lhes até mesmo sobre a possível guerra que seria provocada em caso de morte de um dos citados. No entanto, no momento em que se calou, o castanho percebeu que estava faltando um. Não eram seis Nosferatus sobreviventes, segundo Nicodemos?
_ Então, vamos abolir essa ordem. – declarou Louis, olhando-os. – Pelo que Luhan nos contou, ele está tentando ajudar essa Instituição para derrotar essa nova raça. Não seria nada justo matar um homem ao qual ele está protegendo!
_ E descumprir às ordens primordiais? – rebateu Dimitry. – Nunca quebramos a regra de julgamento do Príncipe e, só por que ele nos contou sobre eles, devemos desfazê-la e ajudar esses humanos?
_ Nunca pensei que os séculos fossem deixa-lo estupido e ignorante, Dimitry. – Nicodemos o olhou. – Por acaso não ouviu o que Luhan disse sobre a guerra?
_ Nós ouvimos, Nicodemos. – Vladimir o encarou. – Mas tudo não passa de exagero. Apenas tempestade em copo d’água. Nós pertencemos a uma raça muito superior do que os humanos e esses lobisomens. Atravessamos incontáveis séculos sem o conhecimento deles. – por fim, desviou os olhos para Luhan. – E não há necessidade de proteger esse humano. Apenas cumpra o que lhe foi ordenado e fim de história.
_ O senhor não entende, Sr. Vladimir. – comentou o Príncipe. – Não entende, por que, assim como os outros, está cego de vingança pelo que houve não apenas a você, mas toda a Máscara. Mas o farei. Irei cumprir com o que foi decidido e deixarei que vocês resolvam as consequências.
Por fim, Luhan seguiu até seu gabinete e escreveu a carta, colocando-a no envelope e fechando-a com a marca da Máscara. Em poucos minutos, o castanho arrumou uma pequena mala e deixou a mansão, entrando num taxi e rumando para o seu apartamento ao leste de Londres. Durante o trajeto, o castanho pensou no que estava prestes a acontecer, enquanto seu coração se apertava pouco a pouco. Seria a segunda vez que ele perderia o amor de sua vida. Logo que o veículo parou diante o prédio, o Príncipe pagou mais do que o necessário e desceu, atravessando o hall de entrada.
Assim que entrou em seu apartamento, jogou a mala sobre o sofá e seguiu para o quarto, pegando o telefone. Relutante, discou o número de Minseok, colocando-o no ouvido e, somente no terceiro toque, foi atendido. Luhan pediu para que o outro viesse ao endereço ditado, já que havia um assunto em particular que deveriam discutir. No começo, o Líder da Ordem tentou negar o pedido, alegando estar muito ocupado, quando...
_ Eu tenho novidades da Máscara que não irão te agradar. – resumiu. – Por favor... Minseok.
_ Estou indo. – respondeu, desligando em seguida.
O castanho jogou o aparelho sobre a cama e desviou os olhos para o relógio na cabeceira da cama, notando que o mesmo marcava meia-noite e dez. Vinte minutos depois, a recepção ligou, alegando que Kim Minseok estava lá para vê-lo. Luhan permitiu que subisse e se dirigiu a porta do apartamento, esperando as portas do elevador se abrirem, o que não demorou muito, já que o Príncipe logo avistou o homem de madeixas acinzentadas mancar até si, trajando roupas mais modernas do que o costume: calça jeans preta rasgada nas pernas, camiseta branca, casaco de moletom escuro e tênis All Star. E, principalmente, sem sua famosa bengala.
_ Acredito que hoje vá chover. – comentou Luhan, rindo em seguida.
_ O que queria falar comigo? – questionou.
_ Entre. – pediu, gesticulando para dentro do apartamento.
Minseok ainda o olhou por algum tempo e entrou, sendo seguido pelo outro, que o guiou até o quarto, pedindo para que sentasse na cama. Luhan logo se acomodou ao seu lado, apoiando os cotovelos nos joelhos e respirou fundo, olhando-o longamente. Seria difícil explicar as razões para trazê-lo até lá, então simplesmente lhe entregou o envelope, num pedido mudo para que o abrisse. O Líder da Ordem alternou as írises azuladas entre o castanho e o papel, abrindo-o devagar e retirou a carta que havia, abrindo-a. E enquanto lia o que estava escrito, o maior relembrou das palavras de Nicodemos sobre o possível passado do homem a sua frente.
Seria ele o descendente dos Lazulli?
_ Está me convidando para uma batalha mortal? – o olhou surpreso. – Luhan, você sabe exatamente o que está me propondo?
_ Eu sei. – concordou. – Quem não sabe são eles. – e suspirou. – Eu fui julgado pelos líderes dos clãs e os Nosferatus entraram num consenso de que eu deveria matar o líder da Ordem. Mas claro que tudo isso não passa de um plano de Chanyeol.
_ Ele, pelo menos, tem noção do que está planejando?
_ Sua visão para o mundo é muito estreita e focada. Ele não se importa com o que irá ocasionar. – riu soprado. – Se soubesse, nunca teria iniciado esse julgamento. – explicou. – Mas eu não tinha muitas escolhas: ou matava você, ou deixava o posto de Príncipe. – por fim o olhou. – Mas não pense que deixar o posto é fácil, pois, se eu deixar de ser Príncipe, eles iniciarão uma caçada de sangue contra mim.
_ Num resumo: ou você morre nas minhas mãos, ou morre nas mãos deles. – Minseok o olhou.
_ Isso. – concordou. – Mas acredite: eu não quero mata-lo.
_ Eu sei bem como é estar entre a cruz e a caldeirinha. – sorriu fraco, dobrando a carta e guardou-a no envelope. – Será em duas semanas?
_ Sim. – assentiu. – Eu... Realmente sinto muito, Minseok.
_ Não sinta. – o olhou. – Ultimamente, nem mesmo eu tenho pena de mim.
_ O que está dizendo? – franziu o cenho.
_ Uma das razões para eu não estar com você, Luhan, foi por que eu estava noivo de outro. – começou. – Contudo... A pessoa ao qual eu amava tanto... Não vai estar mais ao meu lado.
_ Se refere à Jongdae? – questionou e o outro concordou. – V-você... O amava?
_ Ainda o amo. – suspirou. – Mas fui idiota o suficiente para não perdoar o que ele fez. Sendo que... Tudo o que ele fez foi para me trazer de volta.
_ Então, estou na mesma situação que a sua em relação a Sehun. – completou. – Que droga! Estamos realmente na merda. – Não demorou para que os dois rissem baixinho. Logo, o silêncio preencheu o cômodo, fazendo-os encarar o chão. – Minseok... Eu gostaria de perguntar algo. – e o olhou. – O que se lembra da noite em que seu pai foi assassinado?
_ Poucas coisas, por que?
_ Você... Sabe dizer por qual motivo Baekhyung foi morto? – continuou.
_ Uma das versões que me contaram foi que Changmin desejava a morte do meu pai por que ele estava intervendo muito nas decisões da Máscara. – explicou. – Já a outra...
_ O que?
_ É que Changmin sabia do relacionamento amoroso entre meu pai e seu filho, Park Chanyeol. – e o olhou. – Essa última versão parece ser a mais coerente e, principalmente, a que eu menos quero acreditar.
“Pode não parecer, mas eu já havia conhecido Chanyeol antes daquela noite. Meu pai havia nos apresentado antes da chegada de meu irmão e... Eu me divertia com ele. Segundo papai, ele estava lidando com duas crianças. Mas, com o tempo, ele se afastou; começou a agir diferente conosco e, cada vez que me encarava, parecia que iria me matar a qualquer momento. Até que, quando Baekhyun nasceu, a situação piorou. Meu pai nunca mais o viu e preferiu que eu também esquecesse sobre ele. No entanto, na noite em que fomos atacados, eu não imaginava que ele fosse se voltar contra mim e meu irmão. É claro que tudo o que fiz foi para salvar o mais novo, contudo... Eu me sinto decepcionado pelo que ele fez à nós dois”.
E o silêncio preencheu o lugar. Luhan ainda manteve suas órbitas de Marte diretamente focadas nas feições estranhamente fofas do homem ao seu lado. Minseok se limitava a continuar sobre aquele assunto, enquanto girava a aliança em seu dedo, visivelmente pensativo. “Se Nicodemos conhecesse o Líder da Ordem, ele reconheceria aquelas írises?”, pensou o castanho, levantando da cama e abaixou-se diante o outro.
_ Eu sei que nós dois não temos muito tempo... Então... Eu gostaria de esclarecer algumas coisas. – começou, vendo o dono dos Netunos lhe encarar. – Um das razões para que eu me aproximasse de você, Minseok, foi por que você me lembrava de meu primeiro amor num passado distante. As mesmas feições, o mesmo sorriso, os mesmos olhos, contudo, sem o azul. Sehun, assim como eu, sabe que apenas me aproximei de você por que não tive uma oportunidade de tocar no jovem rapaz que havia me apaixonado.
_ Então, acabou descontando em mim? – completou.
_ Parcialmente, sim. – concordou. – Por isso... Eu não sei se seria o correto a fazer, mas gostaria de lhe propor algo para que... Pelo menos, nesta noite, nós...
_ Você quer que eu passe a noite com você? – questionou e Luhan piscou levemente surpreso, olhando-o. – Não como Minseok, mas como... Aliás, qual é o nome dele?
_ Gyeom. – sorriu tímido. Era uma surpresa para o humano ver aquele sorriso incomum nos lábios finos de Luhan. – O nome dele é Lee Gyeom. E sim. Eu gostaria, mas somente se você concordar.
_ E o que pretende fazer comigo?
_ Eu pretendo fazer amor com você. – respondeu. – Sem malícia, sem torturas... Apenas amá-lo de corpo e “alma”. Apesar de “alma” não ser uma palavra correta ao momento.
Em resposta, ambos riram baixinho. E, então, Minseok suspirou, alegando que ele, infelizmente, não poderia permitir aquilo. Não por que a proposta não o agradava, mas pelo fato de já ter feito muita besteira nessas últimas semanas. Luhan o compreendeu, afirmando que entendia bem esse sentimento forte do humano para com o seu seguidor. E sim. Jongdae era um filho da puta de sorte. O Líder lentamente se ergueu, puxando o Príncipe para um abraço forte, sendo retribuído pelo outro que afundou o rosto em seu pescoço.
_ Não me lembro se fiz algum pedido à você, Luhan, mas... – começou baixinho, afagando seus cabelos castanhos. – Peço, por favor, que na noite do combate... Você tire a minha vida.
De súbito, Luhan o encarou surpreso e rapidamente negou com a cabeça, enquanto as lágrimas de sangue escorriam livres.
_ Luhan...
_ Não vou fazer isso... – negou. – Eu não vou tirar...
_ Eu já não consigo mais viver. – cortou-o. – Não tenho mais ânimo para viver. Se você simplesmente quisesse, poderia tirar as minhas roupas e transar comigo aqui, e eu continuaria sem sentir nada. Um bandido poderia simplesmente me espancar até a morte e eu ainda não me importaria.
_ Por que?
_ Por que a pessoa, ao qual tanto me importei, acabou de me deixar. – o olhou e uma lágrimas escorreu. – Eu simplesmente desconfiei da pessoa que eu mais confiava.
_ Eu sei... – pigarreou, se aproximando. – Eu sei que vai conseguir a confiança dela novamente, Minseok. – e pousou as mãos no rosto dele. – Mas, por favor... Eu imploro! Não me peça isso...
Aos olhos de Minseok, Luhan estava destruído. Pouco a pouco, o vampiro cedeu ao próprio peso, ficando de joelhos diante de si. Um sorriso curto transpareceu nos lábios pequenos do humano, enquanto seus dedos afagavam as madeixas castanhas, ainda repetindo para que ele cumprisse com o seu pedido.
_ Eu prometo que, em minhas últimas instruções, não o acusarei de minha morte. – sorriu. – Apenas... Cumpra isso, sim?
E em meio ao choro de Luhan, Minseok deixou o apartamento. O castanho se recostou ao pé da cama, abraçando as próprias pernas e soluçou alto, enquanto balançava a cabeça negativamente. Já não bastava perder seu primeiro amor há anos... Agora, o homem que tanto o lembrava estava lhe pedindo para ser morto. Seu choro ainda ecoava pelo cômodo, mesmo após a chegada de seu seguidor, que estava parado do lado de fora da varanda. Gradativamente, Sehun abriu a janela, adentrando e caminhou até o outro, puxando-o para um abraço lateral.
_ Mestre... – começou ele. – Qual foi a decisão do julgamento?
_ Eles... – Luhan balbuciou, tentando se acalmar. – Eles querem que eu mate Minseok.
_ O... Que? – Sehun desviou os olhos para o outro, incrédulo. – M-mas... Aquilo que me disse...
_ Está prestes a acontecer. – e o olhou. Seu rosto alvo estava manchado em vermelho. – Mas... Isso não é o pior. – por fim, fechou os olhos. – Minseok deseja morrer também.
Sem pensar muito ou sequer ouvir a ordem de negação de seu Mestre, Sehun saltou da varanda e correu na direção de Minseok, o interceptando à poucos metros de um bar. Tanto o humano quanto o vampiro se encararam por longos muitos: um, visivelmente inerte; o outro, notavelmente incrédulo. O homem de madeixas acinzentadas caminhou calmamente pela calçada e sequer reagiu ao passar ao lado do Matador, que apenas lhe acompanhou com os olhos.
_ Sr. Kim! – o chamou, vendo-o parar mais a frente. – Por que está fazendo isso? Por que deseja morrer?
_ Não há mais nada nesse mundo que me agrade. – resumiu, tornando a andar, contudo foi interrompido com a presença alheia diante de si. – Sehun, por favor, saia da minha frente.
_ O senhor irá magoar meu Mestre se continuar com esse pedido. – continuou. – Luhan não quer mata-lo e o senhor...
_ Não tão diferente de mim, Luhan também deseja morrer. – em resposta, Sehun se calou. – E ele deseja isso por sua causa, da mesma forma que desejo morrer por causa de Jongdae. Querendo ou não, vocês dois são a fonte da nossa existência; e tal fonte foi esgotada devido ao nosso desinteresse. Foi por isso que vocês se encontraram, Sehun. Vocês precisavam de atenção e acabaram se entregando um ao outro. Por esse motivo, eu e seu Mestre... Estamos desnorteados e visivelmente magoados, pelo simples fato de que não podemos traze-los de volta. – logo que o silêncio se fez presente, o ruivo baixou os olhos para o chão. – Nessas duas semanas, faça companhia à Luhan. Ele não merece sofrer tanto quanto eu.
_ E o senhor?
_ Eu irei me preparar para a luta. – sorriu fraco, batendo de leve em seu ombro e se afastou. Contudo, antes que ficasse longe o suficiente, Minseok parou e se virou para o outro. – E antes que eu me esqueça: Obrigado por ajudar Jongdae a me trazer de volta.
E Sehun assistiu o homem de madeixas acinzentadas mancar calmamente em direção à Ordem, desaparecendo em meio a pouca névoa que se espalhava pelo país. Durante todo o trajeto, Minseok controlou o choro em sua garganta, apesar de suas lágrimas o denunciarem constantemente. Contudo, um sorriso fraco despontou de seus lábios, ao pressentir a presença de seu novo acompanhante.
_ Veio me fazer companhia? – perguntou num sussurro.
_ Vim vê-lo. – respondeu a voz grave. – O que houve?
_ Estou sofrendo. – explicou. – Desacreditei naquele que pensei ter confiado.
_ E a carta em seu bolso?
_ Convite de casamento. – mentiu.
_ Você é um péssimo mentiroso, Minseok. – logo, o homem parou diante de si. – O que há na carta?
_ Um convite do Príncipe. – o olhou. – Assuntos particulares entre a Ordem e a Máscara.
_ E não pode contar ao seu pai?
_ Antes de contar... – começou. – Eu gostaria de fazer uma pergunta e quero que me responda com “sim” ou “não”. – e, ao olhá-lo, o maior assentiu de leve. – É verdade que, a razão principal para que Park Changmin tirasse a sua vida, foi por que você estava num relacionamento escondido e perigoso com Park Chanyeol?
Baekhyung o fitou longamente sem esboçar nenhuma reação. A intensa troca de olhares entre pai e filho durou longos minutos, provocando um pequeno sorriso em Minseok, que balançou a cabeça lentamente em negação. Não havia a necessidade de dizer em voz alta sobre aquilo. O primogênito Kim sabia bem do quanto seu próprio pai havia se apaixonado pelo vampiro de orelhas saltadas e sorriso largo.
_ E você sabia que o homem ao qual você se apaixonou há 20 anos é o mesmo que está provocando a minha morte? – continuou Minseok, vendo-o estreitar os olhos carmesim. – Assim como é o mesmo que está interessado no seu filho mais novo?
_ O que quer que eu faça? – rosnou baixinho.

_ Assista a desgraça de camarote e em silêncio. – e se afastou, dando a conversa por encerrada.

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