sábado, 8 de abril de 2017

Moonlight - Capitulo Vinte e Nove

_ Kyungsoo-ssi?
O sussurro soou tão próximo de seu ouvido que, por um momento, Kyungsoo quase saltou da cama. O moreno de olhos grandes desviou a atenção para o lado esquerdo, avistando Dahyun com a pouca iluminação do abajur. A garota sorriu de leve, cumprimentando-o e pediu-lhe desculpas por incomodá-lo, mas...
_ Preciso verificar seus ferimentos. – explicou.
_ Sim. – assentiu.
Com todo o cuidado do mundo, Dahyun ajudou-o a sentar na cama – é claro, a fim de não incomodar Jongin que dormia sobre os braços na cadeira do lado direito – e examinou atentamente os ferimentos. O silêncio na enfermaria parecia mais constrangedor do que qualquer outra coisa que Kyungsoo imaginou. Afinal, aquela menina – além de fazer seu coração bater mais rápido – estava envolvida no mesmo mistério da qual ele estava investigando.
_ Kyungsoo-ssi... – começou ela, soltando a atadura. – Por que decidiu vir para a Ordem? Digo, o que lhe convenceu a vir e ficar?
_ Na verdade, eu fui salvo pela Brigada de Caçadores da Ordem. – explicou. – Fui caçado por um bando de vampiros quando eles apareceram e, até hoje, agradeço à Jongdae por ter salvo minha vida. Mas, mesmo depois de ser salvo... Eu não queria ficar aqui.
_ Não queria? – o olhou surpresa.
_ Não. – sorriu-lhe tímido. – O próprio Sr. Kim Minseok tentou me convencer a ficar já que, se eu passasse pelos portões da Ordem, poderia ser morto a qualquer momento. E, até meu último dia de recuperação aqui, insisti que não ficaria. Que voltaria para casa e verificaria se meu tio estava bem. Contudo, meus amigos me convenceram a ficar.
_ E você ficou? – completou, vendo-o assentir. – E, alguma vez, você foi visitar seu tio? Só para ver se ele está bem...
_ Ele morreu. – lentamente, os olhos felinos da mais nova se desviaram para o rosto do moreno que encarava o vazio. – Foi assassinado por um lobisomem. – explicou. – Seu nome está na lista das vítimas deles.  Quando eu e Jongdae fizemos o levantamento... Eu encontrei seu nome.
_ Eu sinto muito. – sussurrou, preocupada.
Seus dedos, que seguravam a ponta da atadura, sequer se moveram. Dahyun permaneceu quieta, encarando o peito enfaixado do Mordomo. Talvez a vida que ele levasse fosse tão parecida quanto a de seu primo. Ou assim, ela pensava, afinal, ambos os homens perderam familiares. Já Kyungsoo, que a observava em silêncio, apenas respirou fundo, despertando-a de seus devaneios e assistiu-a remover a faixa, limpando as suturas.
_ Srta. Kim. – começou Kyungsoo baixinho. – Se importa se eu perguntar algo?
_ Claro. – sorriu-lhe, voltando a trocar as ataduras.
_ Como se tornou especialista em... – mal Kyungsoo continuou, ambos desviaram os olhos para Jongin, a fim de se certificar de que o moreno de madeixas douradas estava dormindo profundamente.
_ Bom... – riu ela. – Eu me formei em biologia e pretendo me especializar em genética. Mas, como os mais velhos costumam dizer: “Você só pode saber o que está dizendo se viver o momento”. Para dizer a verdade, meu pai nunca me permitiu entrar na Ordem. Muito menos, me disse que eu tinha primos. E às vezes, proteção demais pode ocasionar num acidente, exatamente como aconteceu comigo.
“Numa noite, eu estava brincando nas proximidades da minha casa, próximo à uma floresta, quando um deles me atacou. Papai tentou me proteger e me afastar do monstro, mas... Eu também não queria que ele se machucasse. Foi então que, no meio da briga, ele foi arremessado para longe e a criatura investiu contra mim. Uma de suas garras rasgou meu rosto e feriu meu olho, deixando-me cega. Por isso, eu uso um tapa-olho. Depois do ocorrido, deixamos Incheon e nos mudamos para o Japão, onde me ensinaram a lutar e me defender dessas criaturas”.
_ Quanto anos tinha quando aconteceu?
_ Doze. – e o olhou. – O engraçado é que, eu sempre me considerei vítima e que o mundo conspirava contra mim. Você sabe, coisa de pré-adolescente mimada. Mas... Quando eu conheci a história do meu primo... Eu percebi que o que houve comigo não chega aos pés do que aconteceu à ele.
_ Como consegue perceber, nos exames, se uma pessoa se tornou lobisomem ou não? Digo... Nem mesmo a Srta. Eunjung conseguiu identificar a anomalia e...
_ Se lembra do exame feito nele? – começou. – Havia uma pequena observação escrita: “Suposta anomalia encontrada”. Bom... Quando refizeram o exame, especificando a anomalia, foram encontradas pequenas mutações. Percebeu que os ferimentos de Jongin desaparecem rapidamente? – continuou, vendo-o concordar. – Isso é causado por uma das mutações. O corpo possui seus organismos de autodefesa, mas com a mutação, eles se tornaram “super” guarda-costas.
O comentário da morena provocou uma risada baixa em Kyungsoo logo que ela concluiu a troca das ataduras. E todas aquelas risadinhas não agradavam nem um pouco à Jongin, que os ouvia em silêncio, fingindo dormir.
_ Entendo. – assentiu Kyungsoo, suspirando arrastado. – Uma última pergunta: quem a treinou para que lutasse contra lobisomens?
_ Bom... – Dahyun desviou os olhos brevemente para a janela e suspirou baixinho, voltando a encarar o moreno. – Zhang Yixing. Ele sabe bem como lutar contra essas criaturas e me ajudou durante algum tempo quando tentei proteger meu pai. Infelizmente, antes que eu fizesse 18 anos, meu pai morreu de pneumonia, então fiquei sob a guarda de Yixing...
_ Y-yixing? – gaguejou o moreno. Ela estava falando do Chefe dos Zeladores? – Digo... A senhorita está falando de...
_ Sim. O Chefe dos Zeladores, que obedece às ordens de meu primo. – concordou. – Bom... É melhor eu ir. Já está passando das 3 da manhã e... – logo, seus olhos se voltaram para o rosto “adormecido” de Jongin. – Acredito que não devamos continuar essa conversa. Por hora, pelo menos...
E levantou da cama, recolhendo o pequeno kit de primeiros socorros, rumando para fora da enfermaria. Kyungsoo, lentamente, desviou os olhos para Jongin que continuava dormindo e, calmamente, pousou a mão em seus cabelos dourados, afagando-os, enquanto chamava seu nome.
Porém, o outro não lhe respondeu.

Apenas ressonou alto, ao que o Mordomo de Baekhyun compreendeu que não queria ser incomodado.


15 de agosto de 1995
Algo me diz que alguém da Máscara já sabe da verdade sobre mim. E por saber da verdade, eu estou colocando em risco não apenas a mim, mas aos meus filhos também.
Hoje, pela manhã, recebi uma carta enviada pelo Príncipe da Máscara, Jung Yunho. Ainda não ousei abri-la. Percebo pelo olhar do Sr. Lee que ele também deseja saber o que há na carta. Mas tudo o que pude fazer foi lhe pedir desculpas.
Eu não iria abrir.
À tarde, obriguei-me a brincar com as crianças. Minseok mostrou-me o novo brinquedo que havia montado. Já Baekhyun, como sempre, mostrou-me outro machucado para que eu cuidasse.
Céus! Eu juro que, se algo acontecer aos meus filhos, nunca me perdoarei. Passei tanto tempo omitindo e afastando-os desse mundo, tentando acostumá-los a uma vida normal...
E antes do anoitecer, dupliquei a guarda na mansão e passo praticamente todas as noites em claro. Já imagino quem deva ser e antes mesmo de escrever em meu diário, conversei com o Sr. Lee. Estranhamente, eu senti o seu medo só em encarar seus olhos escuros e suas feições cansadas.  “Mestre... Eu tenho um mau pressentimento”, disse ele e lhe respondi “eu também”, por que realmente sabia que algo iria acontecer.
Eu... Tentei uma última ligação. Mas como sempre, ele não me atendeu. Acredito que seja por causa de meus filhos. Contudo, nós dois sabemos que eu não iria abandoná-los, por isso, ele se recusa a falar comigo desde aquela noite. Queria pelo menos ter uma última chance de lhe dizer que eu não havia me esquecido.
De nenhuma palavra.
De nenhum ato.
De nenhum momento.
Me recordo como se tivesse vivido há poucos minutos.
Nesse momento, estou com dificuldades de concluir as anotações no diário por que Baekhyun insistiu em dormir sobre o meu braço direito. Já Minseok ficou no sofá, junto ao Velho Lee que está afagando seus cabelos, enquanto me encara em silêncio.
Tudo o que eu peço é que meus pequenos saiam vivos dessa...
Por que eu sei que o mesmo não ocorrerá para mim.
Luhan gradativamente desviou os olhos para Sehun que se encontrava sentado na outra poltrona, frente a frente com seu Mestre. Aquela era a última anotação no diário de Kim Baekhyung antes do ataque mortal. Em meio àquelas palavras, havia também uma dor imensurável e, principalmente, lágrimas, que manchavam as folhas velhas e amareladas.
_ Ele sabia que iria morrer. – sussurrou o castanho, vendo-o concordar. – Chanyeol alguma vez o leu?
_ Não senhor. – negou o outro. – O diário permaneceu escondido por mim por  20 anos.
_ Enquanto à carta do antigo Príncipe? – questionou Luhan, ao que Sehun se levantou, abrindo a gaveta da mesinha de cabeceira e retirou o envelope velho e ainda lacrado. – Você o preservou do mesmo jeito? – comentou surpreso, pegando-o e, com cuidado, o abriu, retirando a carta.
Ao Sr. Kim Baekhyung,
O Príncipe da Máscara, Jung Yunho, deseja-lhe feliz aniversário por mais um ano de vida. Que o senhor e sua família atravesse os próximos séculos com saúde, alegria e harmonia.
De seu eterno amigo,
Jung Yunho.
434° Príncipe da Máscara.
_ Uma carta de felicitações? – o Príncipe franziu o cenho.
_ Ele morreu horas depois de completar exatamente 28 anos. – explicou Sehun, ao que o outro lhe encarou. – Eu acredito que após ler a última anotação de seu diário, Baekhyung estivesse aproveitando seu aniversário na companhia de seus filhos. Quanto ao restante do diário, eu lhe sugiro que leia, meu senhor. Talvez assim, entenderemos não apenas a mente do Sr. Kim Baekhyung...
Subitamente, o telefone de Sehun soou pelo cômodo, fazendo-o atender de imediato, enquanto seguia para a varanda. Luhan apenas voltou a encarar o diário aberto em mãos, visivelmente abismado com as palavras escritas. Lentamente, folhou algumas páginas anteriores até cair numa data que lhe chamou a atenção: 26 de março de 1987, “o nascimento do primogênito”. Contudo...
_ Senhor, nós temos um problema. – ditou Sehun, interrompendo seus devaneios. – Os líderes dos clãs foram reunidos e estão prestes a convocar uma audiência na Máscara.
_ Audiência? – murmurou sem olhá-lo.
_ Sim. E segundo o líder dos Ventrue, o senhor está sendo acusado de não cumprir com as leis da Máscara. – havia uma mistura de raiva e medo nas palavras do Matador, que sequer desviou os olhos de seu Mestre. No entanto, muito diferente dele, Luhan permanecia quieto e com uma calma sobrenatural. – Senhor? O senhor está me ouvindo?
_ Quem é o acusador? – ditou.
_ Park Chanyeol. – completou, hesitante. – Chanyeol está lhe acusando.
Em resposta, Luhan fechou o diário e relaxou sobre o estofado, sorrindo de leve. Sehun notou que, gradativamente, os lábios alheios se abriam mais e mais até que uma gargalhada escapasse de sua boca. Como pode, num momento tão tenso, o próprio Príncipe estar rindo como se fosse algo absurdamente fútil e engraçado? O castanho riu como se nunca o tivesse feito na vida – ou na morte – e aos poucos, voltou ao normal, respirando fundo.
_ Desculpe-me... Mas qual é a graça? – perguntou Sehun. – As chances de uma Caçada de Sangue contra o senhor são grandes e, nesse momento, o senhor está rindo como se eu tivesse acabado de lhe contar uma piada?!
_ Ah, Sehun... – começou Luhan, balançando a cabeça. – Eu meio que imaginava qual era o plano de Chanyeol esse tempo todo.
_ Imaginava? – no fundo, Sehun odiava não acompanhar o raciocínio de seu Mestre.
_ E principalmente... – o olhou tranquilamente. – Ele não faz a mínima ideia do problema que ele pode ocasionar.  – e estreitou as sobrancelhas. – Eu acredito que você já tenha idealizado um plano para matar Minseok no passado, não?
Em resposta, Sehun baixou a cabeça.
Um, não.
Aproximadamente 587 planos.
Mas Luhan não precisava saber disso.
_ E durante todo esse tempo, eu pergunto: por que não realizou um deles? – continuou.
_ Por que o senhor interviria. – respondeu.
_ Mesmo? – surpreendeu-se. – Mas eu podia muito bem cruzar os braços. – desta vez, Sehun o olhou abismado. – Agora... Sabe por que eu nunca permiti que você ou qualquer outra pessoa, humana ou não humana, encostasse em Kim Minseok?
_ Por que se o Sr. Kim morresse haveria um desequilíbrio?
_ Não apenas isso. – negou, se levantando e tocou o rosto do mais novo com ambas as palmas. – Imagine isso: todas as guerras desde os primórdios da humanidade até agora. – e Sehun o olhou. – Você viu o banho de sangue que é, não viu? Incontáveis mortos, inúmeras cidades destruídas... Um caos global. – por fim, sorriu, enquanto o brilho de seus olhos desaparecia aos poucos. – Isso não é nem 1/3 do que irá acontecer se eu ou Minseok morrermos. Basta apenas um e tudo que vive no planeta irá morrer.
Lentamente, suas mãos se afastaram do rosto alheio, enquanto Luhan transitava pelo quarto.
_ Eu e o Sr. Kim somos o equilíbrio para planeta. – explicou. – Se um de nós for condenado à morte, o caos irá começar. Em outras palavras, somos as duas peças das extremidade de uma série de dominós enfileirados e Chanyeol está escolhendo, em qual das duas, ele derrubará primeiro.
“Se o Sr. Kim for o primeiro a ser derrubado, todos os distritos da Ordem dos Caçadores de todos os países agirão. Os cinco continentes nos quatro cantos do mundo se tornarão apenas uma enorme mancha vermelha. Todos os vampiros existentes no mundo serão exterminados e os que sobreviverem à Cruzada dos Homens será caçado pelas Brigadas. Nós desapareceremos pelos próximos quatro meses”.
“Do contrário, se for eu a peça derrubada, o próximo Príncipe que irá assumir será mais conservador e irá preservar por sua espécie. Em menos de um mês, toda a população do continente europeu será morta ou transformada em vampiro. Em um trimestre, a suposta ‘doença do morto-vivo’ tomará mais força e invadirá a Ásia e a Oceania. E no segundo semestre do ano, toda a população viverá nas sombras. E você sabe o que acontece quando se tem uma superpopulação de sanguessugas? Haverá uma longa e acirrada disputa por comida, ocasionando guerras desnecessárias e mortes em larga escala”.
_  Por fim... Não haverá mais nenhum ser vivo ou morto-vivo na Terra. – logo, os olhos avermelhados do Príncipe se voltou para o seu Matador que estava sentando na cama. – Qualquer que seja a escolha de Chanyeol, isso não vai resultar melhoras.
_ Então... Por que? – Sehun o encarou. – Por que Chanyeol está fazendo isso?
_ Eu não sei. – suspirou. – Chanyeol está me deixando indeciso entre duas razões.
_ Qual é a mais provável? – sussurrou.
_ Ambas são. – explicou. – De qualquer forma, nós devemos ir. Acredito que o Sr. Nicodemos esteja solicitando minha presença antes da audiência.
_ Nicodemos? – questionou confuso. – Quem é Nicodemos?
_ O líder dos Nosferatus. – respondeu. – Ele foi um pai para mim durante muito tempo. Me acompanharia?
Hesitante, Sehun concordou, saltando pela varanda e seguiu seu Mestre pela noite fria. Durante toda a corrida, o Matador notou que eles estavam se afastando de Londres e rumando pelas rotas de acesso à cidade. Numa velocidade sobrenatural, atravessaram um longo percurso até pararem subitamente no meio do nada. O mais novo desviou os olhos para o seu Mestre, ainda confuso com a parada repentina até que Luhan curvou-se, pousando um dos joelhos e os punhos no asfalto úmido.
_ Senhor, o que está fazendo? – perguntou Sehun.
Se algum humano o visse ali, acharia estranho.
Não que isso fosse muito preocupante.
_ Dando as boas-vindas ao Sr. Nicodemos. – respondeu.
_ Mas não há...
E logo o som de patas e relinchos chegaram aos seus ouvidos aguçados, juntamente com os mover das rodas de madeira. Lentamente, os rubis do Matador se desviaram para o horizonte escuro, enquanto uma carruagem puxada por seis cavalos negros se aproximava. Como foi que ele não havia pressentido a chegada do outro? Logo sob a ordem de Luhan, Sehun fez o mesmo, apenas esperando a parada do visitante, algo que não demorou muito. O castanho levantou a cabeça, avistando os dois equinos agitados e desviou os olhos para a portinha que se abriu.
Calmamente, o Príncipe se ergueu, seguido de seu Matador e ambos caminharam até a porta, ao que Luhan gesticulou para que Sehun ficasse ali. Em passos lentos, o mais velho se aproximou e observou a mão cadavérica ser estendida para ele. Se houvesse uma comparação simples, nenhum “Dementador” criado pela famosa escritora britânica chegava aos pés da fisionomia daquele “homem”.
_ Entre... Luhan. – pediu a voz rouca.
O Príncipe notou a diferença entre sua mão e a do outro: duas vezes maior que a sua, com dedos longos e unhas compridas e pontudas, além de uma aparência velha e estranhamente descascada. Com um pequeno sorriso no rosto, Luhan segurou a mão estendida e adentrou a carruagem, sentando-se de frente ao Antigo. Se ele bem lembrava, o clã Nosferatu era um dos mais antigos em termos de tempo e existência, principalmente comparado aos clãs Ventrue, Brujah e outros. “O vovô dos vampiros”, explicou Yunho numa noite quando o rapaz ainda estava aprendendo sobre os clãs e as leis vampíricas. Contudo, ele era apenas um recém-nascido comparado ao primeiro e quase extinto clãs de vampiros.
Quase, por que sobrou apenas um daquela espécie.
_ Sr. Nicodemos. – começou Luhan. – É uma honra reencontra-lo após tantos séculos.
_ Imagino que deva saber o motivo de minha vinda, não?
_ Sim, senhor. – concordou. – E devo alertá-lo de que isso foi um mal-entendido com minha cria. Fui alertado por meu Matador que a Máscara fará uma audiência e que eu estou sendo acusado de não obedecer às leis vampíricas. Mas isso não é verdade. O meu acusador está usando uma desculpa fajuta para me condenar a uma Caçada de Sangue. E eu posso prova-lo de que sou inocente.
_ Eu sei que é inocente, Luhan. – e um sorriso terrivelmente assustador despontou de seus lábios. – Por que achas que eu decidi vir?
_ Vai provar minha inocência?
_ Não apenas vou, como terei o imenso prazer de condenar o filho de Park Changmin à morte. – completou. – Aliás, me enviastes uma carta naquela noite, dizendo que o próprio Changmin foi morto por um humano. Diga-me: quem é este homem para que eu possa agradecê-lo pessoalmente?
_ Seu nome é Kim Minseok. Ele é o filho mais velho de Kim Baekhyung, meu senhor. – respondeu.
_ Kim Minseok... Hum... – sua respiração chiava alto o suficiente para deixar Sehun (que estava do lado de fora) visivelmente assustado. – Ele ainda carrega a maldição?
_ Desculpe-me, mas... Maldição? – Luhan franziu o cenho.
Como podia aquele Antigo saber daquela informação?
Ele nunca mencionara em nenhuma carta que enviara.
_ Qual é a desculpa que ele dá aos seus olhos brilhantemente azulados, Luhan?
_ D-desculpa?
_ Nunca ousou perguntar-lhe qual era o motivo de seus olhos cor de safira? – questionou, levemente surpreso.
_ Não senhor. Eu... Digo... – e engoliu em seco. – Minseok apenas resumiu para mim que ele tinha os olhos azuis devido a uma mutação genética. Apenas isso.
_ Então, o próprio humano esconde a verdade por trás dos olhos azuis. Há uma longa história por trás delas e da maldição. Mas, tudo ao seu tempo, sim? – e lentamente, Nicodemos entrelaçou os longos dedos. – Nosso interesse, nesse momento, é cuidar sobre o seu assunto. Creio que, em algumas horas, os outros virão à audiência, contudo, sentirei falta de um convidado especial nessa noite.
_ E, eu poderia saber quem é esse convidado? – questionou curioso.
_ Ele é atual Príncipe da Máscara na China. – resumiu. – Agora, vamos à mansão. E por favor, peça ao seu Matador que entre de uma vez. Eu tenho pressa.
_ Claro. – assentiu.
E, num piscar de olhos, Sehun acomodou-se ao lado de Luhan, curvando-se brevemente para o visitante e fechou a portinha, ao mesmo tempo que a carruagem seguia rápido. O Matador explicou, no máximo de detalhes possíveis, sobre o que estava acontecendo na mansão e as consequências da decisão de Chanyeol. Nicodemos, que o ouvia atentamente, elogiou-o pela esperteza em recolher informações, parabenizando o Príncipe por possuir um seguidor tão fiel.
Apesar de ambos – Luhan e Sehun – saberem que ainda continuam em pé de guerra.
_ Sr. Nicodemos. – começou o ruivo. – Permita-me fazer duas perguntas.
_ Pergunte.
_ Primeiro, eu gostaria de saber como será essa audiência.
_ Conheces o tribunal, meu caro?
_ O Tribunal...? – franziu o cenho.
_ O tribunal dos homens. – corrigiu. – O júri, os promotores, o juiz... Conheces? – em resposta, Sehun concordou. – Pois bem. Não é tão diferente. Nessa audiência teremos o promotor de acusação, o júri, o advogado de defesa e o Juiz. Contudo...
_ Todos os lugares são preenchidos apenas pelos membros do clã Nosferatu. – explicou Luhan. – Segundo às antigas leis criadas, os Nosferatu são o único clã que prefere a exclusão das decisões do Príncipe e dos outros líderes. Nenhum Nosferatu pode ter um preferiti ou preferido, em relação aos clãs, já isso ocasionaria numa guerra dentro do clã pelos próprios membros.
_ Mas acho que essa lei está sendo quebrada nesses últimos séculos.
_ Entendo. – Sehun assentiu. – A minha segunda pergunta é: suponhamos que o meu Mestre perca na audiência e seja condenado à morte... Quem assumiria o lugar dele e quanto a mim?
_ Nesse caso, meu jovem... – Nicodemos esticou uma das mãos e tocou a ponta dos dedos do queixo de Sehun, vendo-o engolir em seco. – A situação seria essa: Com a morte do Príncipe e, claro, sem a possível matança que ocorrerá, a Máscara irá propor uma assembleia com os líderes a fim de decidir quem irá assumir o lugar de Luhan. Quanto a você, não se preocupe: o Clã Ventrue o aceitará de volta, se assim preferir.
_ Então... Não precisarei servir ao suposto novo Príncipe?
_ Se esse suposto novo Príncipe tiver outro suposto Matador em mente... Sim. Não precisará servir a ele.
_ Obrigado. – agradeceu, baixando a cabeça.
Em pouco tempo, a carruagem chegou à mansão, ao que Sehun e Luhan foram os primeiros a descer. No entanto, quando Nicodemos deixou a carruagem, ambos se surpreenderam com sua grandiosa altura: 2,10m. O homenzarrão caminhou calmamente na direção da varanda e atravessou o hall de entrada, sendo acompanhado pelos outros dois que, de imediato, avistaram Chanyeol no andar de cima.
_ Sr. Nicodemos! – sorriu o gangrel, descendo as escadas.
_ Filhote de barata. – respondeu o homem, fazendo o sorriso do outro desaparecer. – Eu ficaria imensamente surpreso e feliz se soubesse que o causador dessa algazarra toda não era você. Mas não me surpreende ver o filho daquele bastardo desonroso tramando absurdos exatamente como o pai.
_ Perdoe-me, mas... Não deve falar assim do meu pai. – rosnou, fechando o semblante.
_ Seu pai fez um enorme favor para a Máscara, Chanyeol. – Nicodemos calmamente passou ao lado do vampiro, subindo as escadas. – Devia fazer o mesmo e se matar.
_ Mais de meio milênio se passou e até hoje... – ditou em voz alta. – Eu nunca entendi por que o senhor, Sr. Nicodemos, despreza tanto o meu pai.
E no segundo em que Chanyeol se virou, seu corpo paralisou, já que havia um enorme corpo próximo ao seu, praticamente formando uma assustadora sombra sobre si. Quase tão próxima de seu rosto, estavam os rubis brilhantemente avermelhados e o rosto desfigurado e envelhecido do “homem”. Numa breve comparação pelo ponto de vista de Sehun, a reação do gangrel era a mesma de um humano quando via um vampiro sem sua “máscara”.
_ Eu lhe direi quais são os meus motivos por odiar seu pai. – sussurrou rouco. – Mas não agora. Agora... Prefiro descansar. Afinal... – e se afastou aos poucos, subindo as escadas. – Ainda não tenho o direito de matar a testemunha de acusação, não é mesmo?
Tão logo o homem – ou criatura – se foi, Chanyeol se voltou para Luhan que estava em silêncio. Porém, antes que ele pudesse avançar contra o castanho, Sehun meteu-se entre os dois, afastando-o. O silêncio do trio se estendeu por mais alguns longos minutos até o mais alto se afastar em passos largos para a cidade.
_ Não precisava me proteger. – disse Luhan.
_ Não fiz por que queria. – respondeu. – Fiz por que é minha função.
_ Então, por que está me ajudando a salvar Minseok? – franziu o cenho. Por fim, sorriu. – Não é Minseok quem você está protegendo, não é?
_ Não quero que essa guerra aconteça.
E, sem mais uma palavra, Sehun curvou-se, subindo as escadas. Entretanto...
_ Está fazendo isso por que se importa comigo? – questionou. – Ou por que se importa com... Jongdae?
Subitamente, Sehun parou no alto da escada e se voltou para seu Mestre.
_ Você sabe que ele está envolvido. – rebateu Luhan. – E... Eu sei que você se importa com o Mordomo. Afinal, você está com o mesmo brilho nos olhos que eu, quando conheci Lee Gyeom. Sabe que ele vai tentar proteger seu próprio Mestre. E principalmente, que Jongdae tem sentimentos fortes por Minseok...
_ Peço desculpas pelo que vou dizer, mas... Quero que cale a boca.
_ Como? – o olhou incrédulo.
_ Eu deixarei as coisas claras entre nós, Mestre. Primeiro: minha função é protege-lo de qualquer coisa, a qualquer custo. – começou. – Segundo: Não tente colocar palavras na minha boca ou me exibir como se eu fosse um eterno escudo protetor. Terceiro: Ao fim da audiência, eu deixarei o cargo de Matador e voltarei a ser do clã Ventrue. Algo que eu, desde o começo, não deveria ter deixado.
_ Por que tudo isso? Essa rebelião...
_ Não é uma rebelião. É uma decisão minha. Não estou me rebelando contra o senhor. Só não consigo mais me adaptar ao cargo.
_ Tolice. – bufou irônico. – Você sempre foi um ótimo Matador, Sehun.
_ Mas eu cansei.
_ De verdade. – riu Luhan, subindo as escadas. – Qual é o real motivo para deixar de me seguir, Sehun? Essa história de que não suporta mais ficar no cargo de Matador...
_ Quer que eu diga a verdade?
_ Por favor!
_ Muito bem. – assentiu. – A razão de deixar o cargo de Matador e tentar proteger Jongdae é simples: Amor. Eu o amo e sei que...
Mas Sehun não teve tempo de terminar, já que Luhan ria em alto e bom som. Como era de se esperar, o Matador respirou fundo e continuou com seu breve discurso.
_ Ria o quanto quiser. – declarou. – Mas eu cansei de não ser correspondido. Quando eu mais precisei de você, onde você estava? Ah! – ironizou. – Estava pensando em como reconquistar o Líder da Ordem. Você preferia se recordar das suas noites quentes que nunca chegavam no sexo do que se satisfazer comigo. Agora, se me der licença, irei arrumar minhas malas e deixar meus aposentos na mansão. Além do mais, preciso ir atrás daquele que, mesmo sabendo quem eu sou, ainda se importa comigo.
_ E se eu disser que, se Jongdae tentar encostar em você ou até mesmo se aproximar, ele será condenado a morte?
E então, foi a vez de Sehun rir.
_ Você? Ameaçando-o? – e estreitou os olhos. – O senhor não ousaria encostar um dedo em Jongdae, Mestre. E eu vou lhe dizer por que. Primeiro: eu não vou permitir. Segundo: Minseok, que você tanto preza, também não vai permitir. Então, eu pergunto: Com seu “braço direito” e o amor da sua vida noturna e eterna... Como poderia tentar matar ou ameaçar Kim Jongdae?
Em resposta, Luhan se calou. Afinal, Sehun estava certo. Se ele bem conhecia os dois homens, saberia melhor do que ninguém que nenhum deles permitiria que o Mordomo do Líder se machucasse. Calmamente, o Matador tomou o diário de Baekhyung de suas mãos e despediu-se com um leve acenar de cabeça, voltando a caminhar em direção de seus aposentos. O ruivo, logo que entrou em seu quarto, trancou a porta e respirou fundo. Havia uma dor estranha em seu peito, contudo, ele sabia do que aquilo se tratava:
Seu coração estava dividido.
Entre o calor do humano Kim Jongdae e a companhia eterna de Luhan.

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