sábado, 8 de abril de 2017

Moonlight - Capitulo Vinte e Seis

E o silencio reinou por toda a enfermaria após as palavras pronunciadas de Dahyun. Nem mesmo Kyungsoo, que estava presente, parecia acreditar na certeza da garota que tornava a examinar os papeis em suas mãos, como se o que acabasse de dizer fosse algo absurdamente simples. Minseok, que estava mais próximo da prima, cochichou-lhe em seu ouvido, questionando se ela estava certa quanto ao que havia dito, quer dizer, como alguém simplesmente podia diagnosticar algo, apenas olhando para os exames de sangue? Essa era uma pergunta que o jovem paciente fazia a si, enquanto encarava longamente a outra.
_ Eu sou... O que? – Jongin questionou.
_ Srta. Kim. – Kyungsoo interveio, olhando-a. – Como pode ter certeza?
_ Acho que o Minseok-oppa não havia lhe dito, mas eu sou especialista nesse assunto. – e sorriu-lhe, fazendo o Mordomo de Baekhyun corar.
Jongin alternou os olhos entre o quarteto que estava de pé, observando-os longamente e, aos poucos, seu rosto assumiu uma expressão de confusão. Era impressão sua ou eles estavam conversando num idioma diferente? As órbitas de âmbar vagaram lentamente por cada face que interagiam entre si, numa conversa paralela. Possibilidades... Mutações... Cromossomos... Lobos... Mas o que raios eles estavam falando? Que ele era um...
_ Espera um pouco! – ditou, fazendo os quatro desviarem os olhos para si. – Deixa eu ver se entendi. – logo, os âmbares encararam furiosamente a face de Dahyun, fazendo Minseok puxar levemente a prima para junto de si. Afinal, ele não podia garantir que o loiro de pele morena avançasse contra a mais nova. – Você está dizendo que meus cromossomos foram modificados e que a possibilidade de eu me transformar numa besta sanguinária... São grandes?
_ Sim. – concordou, sem desviar os olhos.
_ Em outras palavras... – continuou pausadamente.
_ Em outras palavras... – disse Minseok. – Você é um lobisomem.
E, numa súbita explosão, Jongin gargalhou alto, assustando aos outros. Jongdae alternou os olhos levemente entre o paciente e seu Mestre, que ainda permanecia quieto, apenas observando-o enquanto o loiro se acalmava. A única que ainda permanecia calma naquela enfermaria era Dahyun, que olhava para o rapaz sem esboçar nenhuma reação de medo. Na verdade, dentre os muitos casos que ela encontrou – e que são parecidos com o dele –, aquele estava sendo o mais tranquilo.
Houve uma época em que, ao descobrir a verdade, o paciente acabava atacando-a. E isso resultava a morte de muitos.
_ Ah, claro! – Jongin ditou irônico. – Então, eu sou um lobisomem?
_ Sim. – concordou ela.
_ Ok. Se eu sou um lobisomem... Ele é a Chapeuzinho Vermelho, – continuou, apontando para Kyungsoo, Dahyun e Minseok sequencialmente. – você, uma bruxa, ele, um caçador e aquele ali... É um vampiro.
Nesse momento, Minseok, Jongdae e Kyungsoo desviaram os olhos para a porta da enfermaria, onde Yixing estava parado com uma xicara de café na mão. O chinês de feições tranquilas deteve a borda da porcelana no ar, próximo dos lábios, como se estivesse prestes a tomar o líquido quente, enquanto encarava confuso os presentes. Tanto ele quanto o Líder trocaram um breve olhar, não perceptível pelos outros, e voltaram a observar o acamado que cruzou os braços. Jongin não acreditava no que eles estavam dizendo. Ele? Um lobisomem? Eles só podiam estar brincando. Por fim, o Mordomo de Baekhyun se aproximou devagar do loiro de pele castanha.
_ Eles não estão mentindo. – disse baixinho e sem olhá-lo.
_ Como é? – franziu o cenho, ainda sem entender por que insistiam em brincar com ele. Tudo bem que aquele cara era um gato (e como era!), mas até ele estava lhe fazendo de idiota?
_ A Srta. Kim não está mentindo, Jongin.
_ Até você? – bufou. – E como pode ter tanta certeza?
_ Por que eu vi. – e lhe encarou de soslaio. Ambos trocaram um longo olhar ao que o moreno suspirou arrastado, afastando o casaco e levantando um pouco a camisa. Por fim, Jongin notou que havia um curativo em seu tronco, no entanto, antes que pudesse tocá-lo, Kyungsoo tornou a escondê-lo. – Ontem à noite, você se transformou numa fera e me atacou.
_ F-fui... Eu quem fez... Isso? – murmurou, abismado.
_ Infelizmente... Sim. – assentiu.
_ Então... – iniciou Yixing, se aproximando do pequeno grupo e os olhou. – O que temos aqui?
_ Ele é um lobisomem. – Dahyun ditou, e ao desviar os olhos para Yixing, seu olho piscou surpreso. – V-você...
_ Srta. Kim, é um enorme prazer conhece-la... Pessoalmente. – sorriu-lhe o chinês, mesurando longamente.
_ I-igualmente. – murmurou, baixando a cabeça. – Oppa... Eu... Posso me dirigir ao meu quarto?
_ Claro. – assentiu Minseok, desviando a atenção para Jongdae. – Jongdae, poderia levar Dahyun para os seus aposentos, por favor.
E, numa breve acenar com a cabeça, o Mordomo guiou a garota para fora da enfermaria, que tropeçou algumas vezes, antes de se apoiar em Jongdae e desaparecer de vista dos outros. Yixing ainda a observou subir as escadas antes de voltar sua atenção para o Líder da Ordem e conversar em seu ouvido. E, enquanto Kyungsoo tentava explicar à Jongin sobre o que aconteceria a ele nos próximos dias, a audição aguçada do loiro estava total e completamente desviada para os dois homens de pé que, ao finalizarem a conversa, assentiram em união.
O que eles exatamente estavam planejando fazer com ele?!
_ Kyungsoo. – chamou Yixing, sorrindo para o moreno que lhe olhou. – Poderia me acompanhar a um lugar? O Sr. Kim gostaria de falar em particular com o paciente.
Porém, antes que o Mordomo de Baekhyun se movesse, Jongin segurou seu pulso, rosnando para o homem de órbitas azuladas que sorriu de leve, alegando que não tomaria muito do tempo dele e que tudo o que Minseok faria seriam algumas perguntas. Nada mais do que isso. Relutante, o loiro olhou para o menor de olhos esbugalhados e soltou-o aos poucos, apenas o observando se afastar pelo canto do olho, antes de suspirar arrastado.
_ Estou vendo que você se apegou a Kyungsoo. – comentou Minseok, ainda olhando para a porta da enfermaria. Por fim, tornou a olhá-lo. – Não se preocupe. Logo ele virá lhe fazer companhia.
_ O que você quer de mim? – questionou, olhando-o nervoso.
_ Com certeza, não será o seu sangue ou sua pata. – disse, rindo em seguida. – Eu só quero que me conte o que aconteceu na noite em que você foi atacado.
_ Por que? – e ergueu a cabeça. – Por que quer saber?
_ Por que, assim, eu posso encontrar o seu criador e, quem sabe, acabar com a sua maldição. – justificou.
Maldição? Aquele homem achava que ele tinha uma maldição?
_ E você conseguiria... Removê-la de mim? – olhou-o preocupado.
_ Espero que sim. – encorajou-o com um sorriso.
_ E... Por onde eu devo começar?
_ Comece... Do início. – pediu, puxando uma cadeira e sentou-se, descansando a bengala ao lado de si. – E, claro, quando se sentir confortável, Jongin.
Mas recordar-se daquela noite... Era tão doloroso...
A música eletrônica soava no último volume naquele salão. Os corpos moviam-se tão colados um no outro que era possível sentir – mesmo sem um olfato aguçado – quatro ou cinco tipos de colônias diferentes, misturado ao álcool e ao suor. E, mais afastado dali, estava Kai, com seus amigos Luke, Dylan e Nathan, bebendo “tudo o que eles tinham direito”, segundo o próprio anfitrião. Por ser mais tímido – especialmente, quando não bebia tanto –, Jongin apenas assistia os amigos agarrados em algumas garotas que ele nunca vira na vida, enquanto virava mais alguns copos de cerveja preta.
Era sempre assim: seus amigos namoravam e ele segurava vela.
Mas... Alguém naquela noite pareceu nota-lo, tanto que ao desviar os olhos para a multidão que dançava, Jongin avistou um par de olhos negros e sombrios, apenas bebericando algum liquido que ele não conseguiu identificar devido sua embriaguez. No entanto, não era impressão sua ter aquele olhar longo em seu rosto e corpo. Parecia que o outro cara – do outro lado do salão – estava lhe despindo e lhe comendo com os olhos.
_ Quem era o homem? – questionou Minseok.
Jongin não sabia quem era. Apenas sabia que ele era muito charmoso e, céus! Ele estava prestes a se despir com tamanha intensidade do olhar alheio! Mas, recordando-se um pouco... Ele parecia ser o anfitrião da festa. E assim como este homem estava lhe olhando, num piscar, simplesmente desapareceu no meio da festa, reaparecendo na varanda do andar de cima. Estava trajando uma jaqueta preta de couro e uma calça jeans de mesma cor. Parte da cabeça era raspada; pelo menos, as laterais dela, mas nada que tornasse o visual estranho.
_ Ele disse algo?
“Todos estão convidados para a melhor parte da festa e que o banquete está servido naquele momento”. Só que o anfitrião esqueceu de avisar a eles que o banquete eram os visitantes dali. Jongin podia ver Luke ser jogado sobre a mesa, e diante de seus olhos, a garota que trocava beijos e caricias estava lhe devorando as tripas. Dylan estava cercado por duas mulheres e um homem que o jogaram no chão e transformaram-no numa poça de sangue. Já Nathan... Bem... Ele não conseguia distinguir o que eram miolos e o que era carne no meio daquele sangue. E tudo acontecia tão rápido que o loiro sequer conseguia distinguir o que era real e o que era fictício.
Era como se ele estivesse numa convenção de monstros.
_ Jongin? – chamou Minseok, notando o desespero no olhar alheio. Os âmbares haviam se perdido completamente no vazio, enquanto os lábios carnudos tremulavam em balbucios inaudíveis. – Está tudo bem se não quiser continuar...
_ E ele me atacou. – murmurou, colocando as mãos na cabeça.
_ O anfitrião? – estreitou as sobrancelhas, vendo-o assentir. – E o que ele fez?
_ Disse que me achava interessante... Disse que... Eu seria o motivo de diversão dele... Disse que... Eu seria o motivo perfeito para acabar com a “guarda secreta”. – e, subitamente seus olhos se desviaram para Minseok. – Foi ele quem me mordeu, não foi? E do que ele estava falando quando me disse isso?
_ Eu... – suspirou. – Não posso confirmar isso agora, mas em breve...
_ COMO NÃO PODE CONFIRMAR?! – berrou, saltando da cama e avançou na direção do homem de madeixas acinzentadas. Rapidamente ao se afastar, Minseok derrubou a cadeira no chão, observando as mãos de Jongin se tornarem garras afiadas e o rapaz de pele castanha crescer diante de si. – VOCÊ DEVERIA TER...
_ Afaste-se, Jongin! – a ordem de Kyungsoo soou pela enorme enfermaria, ao que o moreno posicionou-se diante do líder, pronto para qualquer movimento do maior. – Jongin!
E, sem que ambos percebessem, Jongin fechou os olhos e desmaiou no chão frio. Kyungsoo se aproximou do corpo adormecido, abaixando-se ao seu lado e desviou os olhos para o dono das safiras, questionando-lhe o que havia acontecido. Em poucas palavras, Minseok relatou o incidente e ordenou que o paciente fosse devolvido para a cama.
_ Sr. Kim... – Kyungsoo tentou chama-lo.
_ Quando Jongin acordar, envie-o para casa. – pediu, deixando a enfermaria em seguida.
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Baekhyun vagou os olhos para a pasta em suas mãos, enquanto seus pensamentos recordavam-se do pedido de Jongdae ao telefone. É claro que ele estava proibido – assim como qualquer outro professor – de divulgar informações dos alunos. Principalmente, a ficha médica. No entanto, havia uma urgência tanto no timbre do seguidor de seu irmão quanto no de Kyungsoo ao necessitarem das informações. Correndo o olhar pela ficha de Jongin, um fator chamou-lhe a atenção: aquele aluno tinha câncer de pulmão hereditário e estava em seu sexto tratamento contra o maligno.
Teria acontecido algo grave ao garoto?
_ Que estranho. – o tom de voz de Aaron o despertou de seus devaneios, fazendo o jovem professor de História encarar o colega que adentrara a sala dos professores. – Hoje faltaram os meus quatro melhores alunos.
_ Como? – Baekhyun franziu o cenho.
_ Pois é. – assentiu, suspirando e sentou-se na cadeira. – Jongin, Luke, Dylan e Nathan não vieram para a aula. – e fitou o amigo. – Eu pedi que a coordenação ligasse para os pais deles, a fim de saber por que não vieram.
_ Ah... – murmurou. – Hã... Aaron. Você sabia que o Jongin tem... Câncer de pulmão hereditário?
_ Sim. – concordou. – Por isso, eu tento diminuir as piadas em sala de aula. – e sorriu.
_ Sr. Johnson. – a porta novamente se abriu, onde a secretária apareceu com alguns papeis. – Acabei de ligar para os familiares dos alunos e eles disseram que estão desaparecidos.
_ D-desasparecidos? – gaguejou o professor, confuso.
Enquanto a conversa se seguia, Baekhyun voltou sua atenção para a ficha em mãos, a fim de entender o que a Ordem estava fazendo. O moreno observou o amigo – ainda aturdido – deixar a sala e, prontamente, pegou o celular, discando o número de Minseok. No fundo, o professor de História esperava que seu irmão lhe desse alguma informação.
_ Minseok. – respondeu.
_ É o Baekhyun. – disse. – Sabe de algum desaparecimento que ocorreu ontem à noite?
_ O que quer dizer?
_ Quatro alunos da escola onde leciono desapar...
_ Jongin está vivo. – cortou-o.
_ V-vivo? Você... Tem certeza?
_ Se não acredita em mim, por que não vem hoje à noite a Ordem?
_ Irei. Mas... E quanto aos outros três?
_ Lhe conto quando vier. Tenha um bom dia.
E desligou. Baekhyun ainda encarou o aparelho por longos minutos e suspirou arrastado, guardando-o no bolso. Por fim, fechou a pasta com as informações do aluno e devolveu a secretaria da Instituição, caminhando, assim, pelos corredores. No entanto, ao virar no corredor, seu peito se apertou forte, fazendo-o cambalear e se apoiar na parede. O que estava acontecendo a si? Não era a primeira vez que ele sofria aquilo, porém, pareceu bem mais forte do que a anterior.
Na outra vez, ele estava deixando a universidade, quando seu peito se apertou numa dor forte, mas suportável. Duas pessoas que o acompanhavam – colegas de turma – questionaram se ele não gostaria de ir ao hospital, a fim de saber do que se tratava. No entanto, Baekhyun se recusou, apenas sorriu de leve e garantiu que não era nada demais.
Mas estava sendo diferente naquele momento. E algo lhe dizia... No fundo de seu âmago que estava relacionado ao seu... Hyung?
E enquanto Baekhyun tentava acalmar a dor em seu peito, a quase dez quilômetros de distância, os rubis lhe observavam atentamente, enquanto um sorriso misterioso transparecia em seus lábios finos. Ele sabia que o jovem professor estava preocupado, afinal, eles estavam conectados. Acomodado no sofá de frente as janelas da varanda e dentro do apartamento escuro, o gangrel de madeixas castanhas tamborilava suavemente os longos dedos sobre o encosto do estofado, enquanto sua mente fervilhava em inúmeras ideias.
Desde que se despediu do jovem professor de História, há quatro dias, Chanyeol sabia que teria de pôr seu plano em prática. Mas claro, ele precisaria de mais algum tempo para pensar melhor. Aquele plano não poderia ter falhas, não senhor. Deveria ser perfeito, exatamente como a tonalidade de pele e a cor dos olhos de Baekhyun. E claro! Acima de tudo, para que ficassem eternamente juntos... Ele precisaria remover algumas pedras no caminho.
Começando... Pela maior delas.
Num impulso, Chanyeol se ergueu e se aproximou das janelas fechadas com as cortinas, enquanto um longo suspiro abandonava seus lábios. E inúmeras ideias, rostos, posições, palavras corriam por sua mente desenvolvida, formando assim, o maior plano de sua vida imortal.

_ Eu lhe disse... Que cuidaria muito bem do bebê. – cantarolou maquiavelicamente.


_ Dahyun está bem?
A atenção de Jongdae se desviou para o gabinete onde o Líder da Ordem estava. Minseok mantinha suas órbitas de Netuno focadas nos papeis sobre a mesa de madeira, apenas esperando a resposta de seu seguidor, que parecia nervoso por mais que não o olhasse diretamente. Ele conhecia bem o Mordomo que tinha e o quão errado estava depois do que fizera.
_ Sim, senhor. – respondeu, após longos minutos. – A Srta. Kim estava apenas com dor de cabeça.
_ Eu imagino que sim. – sorriu de leve e lhe olhou. – Afinal, ela acabou de chegar de viagem.
Era como se Minseok tivesse lhe dado uma dolorosa tapa em sua bochecha. No momento em que o homem de madeixas acinzentadas se levantou de sua cadeira, Jongdae baixou a cabeça e encolheu os ombros, num pedido mudo para que não fosse punido. Aliás, a culpa – em termos técnicos – não era dele por não saber ou reconhecer o parente distante de seu Mestre. Por mais que fosse uma obrigação sua fazê-lo. Sim, ele deveria ter reconhecido Dahyun desde o início, contudo...
_ Você está bem? – um violento arrepio percorreu por seu rosto ao ouvir o timbre sussurrado de seu Mestre próximo aos seus ouvidos. Lentamente, ao erguer o olhar, Jongdae avistou Minseok próximo de si, enquanto a mão alheia tocava seu ombro. – Parece nervoso.
_ Perdoe-me, senhor. – pediu, rapidamente se ajoelhando diante o outro. – Eu... Deveria ter...
_ Levante-se. – ordenou.
Relutante, Jongdae permaneceu no mesmo lugar, apenas levantando a cabeça e encarou os Netunos brilhantes que lhe avaliavam em silencio.  No entanto, ao novamente baixar a cabeça, Minseok abaixou-se, segurando seu rosto pelo queixo e forçou-lhe a olhá-lo. Naqueles próximos minutos, nenhuma palavra foi proferida, apesar de ambos entenderem do que se tratavam da conversa. Era um pedido mudo de desculpas sobre o ciúme do Mordomo e a teimosia de seu Senhor. As órbitas escuras do mais novo alternaram-se discretamente entre as semelhantes azuladas do mais velho e seus lábios, mas, antes que o moreno pudesse dizer-lhe algo, o Líder da Ordem se ergueu, afastando-se aos poucos em direção à sua mesa.
_ Eu conversei às sós com Jongin sobre o que houve a ele.
_ E... O que descobriu? – perguntou Jongdae, pigarreando e se erguendo.
_ O lobisomem que o mordeu está planejando algo contra a Ordem. – suspirou, se virando para o moreno. – Ele disse que Jongin seria o motivo perfeito para acabar com a “guarda secreta”.
_ Então, usaremos Jongin a nosso favor. – sugeriu Jongdae.
_ Jongin é apenas uma criança, Jongdae. – lembrou-o. – Ele não sabe de nada sobre o nosso mundo.
_ E por que não o ensinamos? – olhou-o confuso. – Exatamente, como nós aprendemos.
_ Ensinar àquela criança? – repetiu Minseok, estreitando os olhos.
_ Sim. – assentiu. – Jongin pode ser uma criança aos nossos olhos, mas... Senhor. – e se aproximou. – Ele pode estar do nosso lado quando...
_ Estamos às vésperas de uma possível guerra dentro de Londres e você sugere que treinemos o paciente?!
_ Eu me disponibilizo a...
_ Nem pensar. – rebateu e Jongdae piscou rápido. – Você não irá treiná-lo. Assim que ele acordar, Kyungsoo o enviará para casa.
Jongdae o olhou longamente e baixou a cabeça, concordando em silêncio. Por fim, o Mordomo curvou-se em respeito e retirou-se do escritório do líder, caminhando rápido pelos corredores da mansão, descendo as escadas e rumando para a enfermaria, onde Kyungsoo observava atentamente ao paciente que ainda dormia.
_ Kyungsoo? – lentamente, a atenção do rapaz de olhos grandes se desviou para o Mordomo do Líder, que parou próximo de si, respirando fundo. – Eu quero lhe propor algo. Mas, antes, quero alertá-lo de que, se o Mestre souber, isso custará nossas vidas.
_ Jongdae, tome cuidado com o que está dizendo. – alertou-o.
_ Eu sei. – concordou, olhando brevemente para o paciente adormecido. – Mas não temos muito tempo. – e continuou em sussurros. – Nós dois sabemos que esse garoto foi mordido por um lobisomem. Por isso, eu estou lhe propondo uma coisa.
_ E o que é?
_ Vamos treiná-lo e deixa-lo do nosso lado. – sugeriu.
_ Como? – franziu o cenho. – Você quer que treinemos Jongin?
_ Quero.
_ Jongdae, você percebeu o que está pedindo? – continuou. – Jongin é vítima daqueles monstros e você quer treiná-lo para que ele lute do nosso lado?
_ Kyungsoo, nós estamos perdendo tempo nessa discussão. Uma guerra se aproxima e precisamos recrutar o máximo de pessoas para combater essas coisas.
_ Com o sem guerra, essa criança...
_ Eu topo. – subitamente a atenção dos dois se desviaram para o acamado que se encontrava sentado na cama e completamente desperto. Jongin olhou para os dois homens longamente, enquanto um sorriso curto transparecia em seus lábios. – Se vocês vão me treinar, eu...
_ Não vai, não. – interrompeu Kyungsoo, lhe encarando. – Escutem aqui: O Sr. Kim ordenou-me que enviasse o paciente para casa assim que ele acordasse e é o que irei fazer. Se tem algo contra isso, Jongdae, fale com ele.
E sem esperar muito, Kyungsoo pegou uma muda de roupas limpas e entregou ao loiro de pele castanha, ordenando-lhe que se vestisse. Relutante, Jongin alternou os olhos entre os dois homens antes de finalmente vestir as roupas e os sapatos, logo seguindo o baixinho que deixava a enfermaria. Ao entrarem no carro, saíram da mansão e rumaram pelas ruas movimentadas de Londres. “Afinal, qual era o problema dele?”, essa era a pergunta que rondava a mente dos três. Durante o trajeto, o mais novo desviava os olhos para o motorista que dirigia em silêncio, sem desviar o foco do transito.
_ Onde você mora? – questionou, verificando o retrovisor interno.
_ Numa residência estudantil. – respondeu, voltando a encarar a janela. E, logo lhe indicou o endereço. Assim que Kyungsoo entrou numa rua de acesso, o loiro continuou. – Por que não aceitou a proposta daquele cara?
_ Por que é suicídio. – respondeu seco. Em resposta, Jongin o olhou preocupado. Logo, um suspiro deixou os lábios de Kyungsoo. – Jongdae quer usar você para vencermos na guerra. E eu me recuso a aceitar isso.
_ Por que... Você se preocupa comigo? – e um sorriso tímido transpareceu em seus lábios.
_ Por que você é uma criança imatura. – corrigiu e Jongin fechou os olhos, suspirando. Ele odiava quando o chamavam assim.
_ Eu não sou criança...
_ Chegamos. – e finalmente, o carro foi estacionado diante um belíssimo prédio, onde alguns estudantes saiam e entravam. Kyungsoo esperou pacientemente que o outro saísse, no entanto, Jongin ainda ficou algum tempo dentro do veículo. – Antes de ir, eu quero deixar algumas coisas em claro. Primeiro: – e se olharam. – Esqueça tudo o que viu e ouviu dentro da Mansão. Se alguém perguntar para onde você havia ido, diga que dormiu na casa de um amigo e que não viu o tempo passar. Segundo: Ligue para os seus pais e os acalme. Diga que está tudo bem, que você apenas foi imprudente como qualquer adolescente e que isso não vai mais se repetir.
_ E se eu me tornar uma fera hoje à noite? – questionou.
_ Se acontecer, fuja para longe das pessoas. – disse. – Tente não colocar a vida dos outros em risco.
_ Certo. – assentiu, e removeu o cinto de segurança. – E... Eu vou vê-lo de novo?
Kyungsoo notou o olhar discretamente esperançoso de Jongin, por mais que o loiro de pele castanha encarasse suas mãos fechadas. Devagar, o moreno de olhos grandes voltou a encarar o caminho e negou com a cabeça, alegando que, para o bem dele, eles não deviam se ver.
_ Ok. – sussurrou Jongin derrotado. – Tenha um bom dia.
E deixou o veículo escuro, fechando a porta em seguida. Logo, Kyungsoo observou o loiro passando a mão pelos cabelos, enquanto limpava o rosto e encolhia os ombros. Ou pelo menos, era isso o que ele conseguia perceber pelo dorso do rapaz. No fundo, Jongin não queria ir embora e esquecer tudo o que ele viu. Especialmente, o moreno que ficou ao seu lado enquanto se recuperava. Mas, ou era isso, ou seria tachado de louco. Devagar, os olhos de cor âmbar se voltaram para o carro preto onde o outro estava e o assistiu partir em seguida, ao mesmo tempo em que duas lágrimas solitárias escorriam de seus olhos, como mel derretido.
_ Jongin? – o timbre suave soou próximo aos seus ouvidos, e, ao se virar, o loiro avistou sua colega de turma, Soojung (ou como comumente era chamada, Krystal) lhe encarando de forma confusa. – Você está bem?
Sua única resposta foi um aceno negativo com a cabeça, antes do choro consumir seus sentidos. Já alguns quilômetros de distância da residência estudantil, Kyungsoo descansava a cabeça contra o volante, a fim de esconder as lágrimas traidoras que escorriam por suas bochechas. Ele não podia chegar daquela forma na mansão. Assim como também não podia deixar que Jongin entrasse em seu mundo perigoso, frio e sombrio. Rapidamente, tratou de secar as lágrimas e se acalmar, voltando assim a dirigir pela rua até a Ordem, enquanto repetia constantemente para que aquilo não se repetisse... Nunca mais.


_ Ela está mudada. – subitamente, as safiras brilhantes se desviaram para o chinês de feições tranquilas. – Me refiro à Srta. Kim...
_ Eu não poderia confirmar isso, já que faz algum tempo que não a vejo. – Minseok justificou, recostando-se na poltrona. – No entanto, Yixing, eu lhe chamei por outro motivo.
_ O garoto? – sugeriu, sorrindo.
_ Sim. – concordou, avaliando as feições do Chefe dos Zeladores. – Você acha que ele...
_ Sentiu meu cheiro? – completou novamente, um tanto pensativo. – Talvez. Talvez não. Creio que o garoto... Jongin... Ele tenha um faro aguçado... Ou seu palpite foi de pura sorte.
_ Sorte de principiante? – comentou, rindo. – Você não é do tipo que acredita muito nisso.
Em resposta, Yixing riu soprado, assentindo.
_ Não. Não sou, senhor. Mas... Se quiser, ficarei de olho no rapaz.
_ Eu agradeço. – Minseok sorriu de leve, baixando os olhos para os papeis em seu gabinete. – Você notou a reação de Dahyun... Não notou?
_ Eu imagino que teria semelhante reação se nossos papeis estivessem trocados. – explicou, fechando as mãos sobre os braços da poltrona.
_ Vocês... Não acham que deveriam conversar? – questionou, olhando-o. – Afinal, vocês têm um caso mal resolvido.
_ O senhor irá receber seu irmão hoje, não é? – perguntou Yixing, mudando de assunto.
_ Não minta para o seu líder. – zombou, transparecendo um meio sorriso e, em resposta, o chinês o olhou longamente. – Ela o amava.
_ Ela é jovem. Está destinada a amar qualquer um...
_ Mas ela o amou acima de tudo. Tanto do pai dela, quanto...
_ Eu sei. – assentiu, baixando a cabeça. – Dahyun é uma criança maravilhosa e extraordinária.
Devagar, Minseok se levantou de sua cadeira e mancou calmamente em direção a porta de entrada. Por fim, ao abri-la, avistou sua prima diante de si, enquanto desviava o olho nervosamente.
_ Só tem um problema, Yixing. – ditou o líder, chamando a atenção do outro. – Dahyun não é mais uma criança.
E, sem proferir mais uma palavra, Minseok deixou seu gabinete onde a jovem Dahyun e Yixing permaneceram quietos, enquanto trocavam um longo olhar.
_ Eu... – começou ela. – Quer dizer, nós... Precisamos conversar. 

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