sábado, 8 de abril de 2017

Moonlight - Capitulo Vinte e Sete

A conversa dentro do escritório da mansão parecia perdurar mais do que o tempo estimado. Desde as sete da noite, os irmãos Kim estavam naquele cômodo, discutindo sobre o que estaria acontecendo naqueles últimos dias. Baekhyun relatou ao irmão que, desde a última vez que vira Chanyeol, nunca mais o mesmo apareceu na escola ou em qualquer lugar que ele frequentava. “Era como se ele estivesse se escondendo”, comentou, pensativo. Minseok concordou, alegando que, em tese, isso era bom; no entanto, ambos deveriam redobrar a atenção. Além do mais, eles não sabiam qual era o próximo movimento do vampiro. Por fim, foi a vez do líder da Ordem explicar sobre o “caso Kai”, sendo ouvido atentamente pelo irmão mais novo.
_ Deixe-me ver se entendi. – Baekhyun respirou fundo e encarou o irmão longamente. – Está dizendo que os quatro alunos da escola onde leciono foram atacados por alguma coisa, que ainda não temos certeza, e que somente Jongin sobreviveu?
_ Exatamente. – concordou Minseok. – Ainda estamos à procura dos corpos das outras três vítimas. Segundo Jongin, seus amigos foram mortos e...
_ Onde ele está agora? – questionou. O mais velho notou a preocupação alheia.
_ Em segurança. – o olhou.
_ Ele não está...
_ Ele foi enviado de volta para o seu lar. Creio que, por ser intercambista, ele esteja morando numa residência estudantil. – explicou, recebendo um aceno positivo do outro. – No entanto, devemos ter o máximo de cautela.
_ Por que? – franziu o cenho. – Acabou de me dizer que Jongin estava bem e...
Todavia, o professor de História calou-se. Ele podia notar o brilho estranho nas irises azuladas do mais velho, que suavemente, tamborilava os dedos sobre o braço do estofado, visivelmente pensativo. Baekhyun devia se lembrar de como seu irmão reagia quando alguma coisa estava estranha. Seu silêncio era quase sobrenatural, assim como a intensidade de seu olhar para qualquer objeto ou pessoa.
_ Você me disse, anteriormente, que na ficha médica do garoto, estava escrito “câncer de pulmão hereditário”, certo? – e o olhou. Em resposta, Baekhyun assentiu. – Aqui está o último exame de sangue feito. – logo, Minseok entregou-lhe alguns papeis, ao que o outro os recebeu, examinando atentamente. Por fim, continuou. – Kyungsoo disse que a suposta marca de mordida no ombro da vítima havia desaparecido. E nos exames de sangue não consta nenhuma anomalia, a não ser esta que está grifada num círculo.
_ E quanto a parte do câncer? – questionou.
_ Eu imagino que ele esteja curado. – respondeu.
_ Mas é impossível! Digo... – e o olhou confuso. – Da noite para o dia?
_ Se quiser, posso chamar alguém que saiba explicar isso melhor do que eu. – sugeriu, quase tocando no telefone quando Baekhyun o deteve.
_ Não é necessário. – disse, balançando a cabeça. – Só o fato de saber que Jongin está bem me tranquiliza um pouco. – em resposta, Minseok assentiu. – Bem... Como tudo foi esclarecido, pelo menos, parcialmente, já que você gosta de mistérios... – continuou, arrancando um breve sorriso do homem de madeixas acinzentadas. – Eu preciso ir. Me avise se souber de alguma coisa...
_ Baekhyun. – chamou-o, ao que o moreno de semelhantes safiras azuladas desviou a atenção para si. Devagar, Minseok levantou-se de seu lugar e caminhou até o outro, pousando a mão suavemente em seu rosto. – Se estiver acontecendo alguma coisa que está lhe assustando... – e o jovem professor engoliu em seco. Era como se o outro tivesse lido seus pensamentos. – Por favor, me diga e farei de tudo para ajudá-lo.
_ Não precisa. – sorriu forçado, afastando a mão alheia. – Você é um homem cheio de preocupações. Não tem que se importar com as minhas coisas.
_ Pelo contrário. – corrigiu-o. – Por ser meu dongsaeng, eu...
_ Hyung. – Baekhyun o interrompeu. – Tenha uma boa noite.
E o líder da Ordem assistiu o jovem professor deixar seu escritório em silêncio. Por mais que o moreno negasse, o mais velho sabia que havia alguma coisa errada com ele. Além do mais, a constante – e distraída – massagem no peito chamou a atenção de Minseok, por mais que Baekhyun fingisse que nada estivesse acontecendo.
Já no corredor, o mais novo apoiou-se na parede e respirou fundo, pressionando o punho contra o próprio peito, enquanto verificava se ninguém estava lhe observando. Ele não queria preocupar o irmão com aquilo, por mais que Minseok insistisse. Já não bastava ser um estorvo desde a infância? Preocupando-o e o atrasando em suas atividades? Não. Desta vez, Baekhyun faria diferente. Após uma breve recuperação de sua dor, o professor tornou a caminhar pelos corredores e logo que se aproximou da escadaria, parou brevemente. Um pouco mais afastado de si, Dahyun estava estática, enquanto encarava o vazio longamente. Será que seu único olho... Estava brincando com a sua mente? Ou aquele no qual acabara de passar do lado era... Seu tio? Devagar, a garota se virou na direção do homem que ainda estava de costas e o assistiu descer as escadas, rumando para fora da mansão. Não. Aquele não era seu tio. Quer dizer... Aparentemente...
_ A semelhança é grande, não é? – o timbre suave despertou-a de seus devaneios, fazendo-a se virar na direção de Yixing. – Tive a mesma reação quando o vi pela primeira vez.
_ Ele é... – começou ela.
_ Seu primo mais novo, Byun Baekhyun. – completou. – O dongsaeng do Sr. Kim.
_ Nossa... – surpreendeu-se. – Eles são tão parecidos... Só que...
_ Baekhyun é mais quente. – desta vez, o chinês riu. – No bom sentido.
Dahyun concordou em silêncio, tamborilando os dedos uns contra os outros, num visível sinal de nervosismo, enquanto recordava-se das palavras do mais velho. Yixing lhe dissera que havia se apaixonado por alguém, no entanto, ele sabia que não podia estar com essa pessoa. E agora, 10 anos depois, a pequena Kim tornou a ouvir as mesmas desculpas de antes.
_ É comprometido? – murmurou.
_ Ele está noivo de uma moça...
_ Eu perguntei de você. – interrompeu.
_ Srta. Kim...
Não demorou muito para que Yixing avistasse as supostas lágrimas que ameaçavam escorrer pela face alheia. O chefe dos zeladores conhecia bem aquela criança, contudo, não podia se permitir interagir com ela. Primeiramente, por causa da sua idade. Segundo, pelo que ele é.
_ Desde a sua última viagem ao Japão... Eu percebi que você estava mais afastado. – começou ela. – Até pensei que era por conta do meu tio...
_ Dahyun-ssi. – logo, o maior se aproximou da garota e pousou as mãos em seus ombros, fazendo-a olha-lo. – Há várias razões para que nossa relação não tenha dado certo. Somos de tempos completamente diferentes...
_ Mais uma de suas inúmeras desculpas. – riu de escárnio. Por fim, o encarou. – Bastava dizer que não me amava mais!
_ Eu ainda me importo com você. – corrigiu. E, no instante em que Dahyun se aproximou do loiro o suficiente para colar ambos os lábios, Yixing continuou. – E por me importar que eu quero que viva uma vida normal.
_ Uma vida normal? – sussurrou.
_ Logo que descobrirmos como matar essas feras, o Sr. Kim estará devolvendo-a para o Japão, onde seu futuro marido a aguarda. – concluiu.
_ M-marido? Eu... Terei um casamento arranjado?
_ Ele é um bom partidário e...
_ Vocês são um bando de bastardos egoístas! – praguejou, afastando-se para longe do chinês.
Yixing ainda tentou detê-la, porém, sabia o quão magoada ela estava. Dahyun atravessou os corredores da mansão correndo e, logo que avistou Jongdae deixar a sala de treinamento, o abraçou com força, afundando o rosto em seu peito suado. O choque de ambos os corpos quase desequilibrou o mais velho que se recostou a porta de carvalho, enquanto as mãos alheias fechavam em suas costas. O Mordomo a olhou confuso e surpreendeu-se com o choro abafado da garota, que repetia constantemente para que ele convencesse ao seu primo a não lhe deixar voltar para o Japão.
_ Srta. Kim, desculpe, mas eu não entendo. – disse Jongdae, afastando-a aos poucos. – Por que está dizendo isso?
_ Minseok-oppa quer me devolver para o Japão logo que tudo isso acabar. M-mas... – e o olhou chorosa. – Eu não quero voltar. Eu vou ficar longe dele, da minha única família...
_ Senhorita, por favor, se acalme...
_ Ele quer que eu me case com alguém que nunca vi na vida! – continuou, desesperada. – Por favor, Jongdae-oppa...
_ Primeiro... – o moreno suspirou, afagando seus cabelos delicadamente. – Se acalme. Eu irei conversar com o Sr. Kim...
_ Sobre o que? – logo, os dois desviaram a atenção para a entrada do corredor de acesso à sala de treinamento. Com um longo olhar acusador, Minseok avaliou as reações de Dahyun e Jongdae, ao que a menor se escondeu atrás do moreno. – Sobre o que quer falar comigo?
_ Sr. Kim... – Jongdae tentou se explicar, porém, Dahyun o deteve.
_ Yixing me disse que, quando resolvermos esse caso, você vai me enviar de volta ao Japão. – começou ela. – Mas eu não vou voltar. Ele disse também que tem um casamento arranjado para mim, mas quer saber? – e, nesse segundo, Jongdae sentiu o coração parar ao vê-la abraçada a si. – Eu irei me casar com o seu Mordomo. E ponto final!
Lentamente, os mares escuros do rapaz se desviaram para as feições de seu Mestre que, gradativamente, reprimia um sorriso. Por fim, Minseok gargalhou diante a dupla que o encaravam confusos. Nenhum deles estava esperando uma reação daquelas. Jongdae, que ainda estava preso nos braços da prima de seu senhor, tentou se soltar, porém foi inútil, já que a menor tinha muita força.
_ Primeiro... – começou o Líder da Ordem, mais calmo. – Solte o Jongdae, Dahyun-ssi. – pediu e ela o fez. – Segundo... A ideia de enviá-la de volta ao Japão era uma hipótese discutida no início, antes da sua chegada. Terceiro... Não há nenhum casamento arranjado. Aquilo foi uma ideia de Yixing para que você não se aproximasse dele. E por último... – desta vez, a atenção do mais velho se voltou para o próprio Mordomo. – Se Jongdae aceitar sua proposta de casamento, eu estarei apoiando os dois.
_ Então... Eu não preciso voltar? – ela o olhou.
_ Se assim preferir, eu cancelarei o voo. – sorriu de leve.
E, quase como um bálsamo, Dahyun correu até o primo e o abraçou, agradecendo constantemente. Minseok cercou um dos braços em torno de sua cintura, ouvindo o choro e os inúmeros pedidos de desculpas da mais nova, até que seus olhos se desviaram para o Mordomo que vestia a camisa de botões branca.
_ Por que não desce para jantar, Dahyun? – sugeriu o mais velho. – Eu ainda preciso conversar com Jongdae. – em resposta, Dahyun assentiu, olhando brevemente para o moreno e se afastou dos dois. Jongdae respirou fundo, caminhando até o mais velho que o avaliava em silêncio, sorrindo, por fim, de leve. – Deve ter ficado nervoso com as palavras dela, não? – começou Minseok.
_ Um pouco. – admitiu. – M-mas... O senhor realmente... Permitiria isso? – e o olhou.
_ O que?
_ Me casar com Dahyun. – completou. – O senhor... Aceitaria?
Minseok o fitou por alguns minutos, completamente calado e respirou fundo, negando com a cabeça. Por mais que soubesse que não poderia intervir nas decisões de seu Mordomo ou de sua prima mais nova, principalmente por também estar noivo de outro, ele não se perdoaria se Jongdae se casasse com ela. O Mordomo o olhou em silêncio e sorriu de leve, curvando-se, mas antes que pudesse se afastar, seu Mestre o chamou.
_ Preciso que me leve à casa de Baekhyun. – pediu. – Tem algo de errado com ele.
_ Agora? O senhor... Esperaria eu... – começou Jongdae, calando ao notar as órbitas azuladas desviarem para o seu rosto. – Tudo bem. Só irei pegar as chaves do carro.
_ Não vai tomar banho primeiro? – questionou, estreitando as sobrancelhas.
_ Achei que o senhor estivesse...

_ Direto para o banho, Jongdae. – ordenou Minseok, apontando na direção de seus aposentos.


O silêncio no interior da biblioteca parecia tranquilizar a mente concentrada do Mordomo de Baekhyun, que calmamente, folheava as páginas da árvore genealógica do clã Choi. Vez ou outra, o moreno de olhos grandes escrevia alguma anotação em sua caderneta, voltando a observar os nomes e as datas escritas, a fim de encontrar alguma lógica neles. Irmãos, primos, tios... Pais, filhos. No fundo, Kyungsoo sentia que havia uma ligação da árvore com a lenda, porém... Como ele conseguiria identificar qual verso pertencia a cada membro?
_ Isso está me dando dor de cabeça. – murmurou, largando a caneta sobre a mesa.
“E... Eu vou vê-lo de novo?”
O moreno suspirou arrastado, olhando atentamente pela grandiosa biblioteca. Ele estava sozinho e tinha certeza disso, pois havia acabado de ver um dos “recrutas” saindo dali. Cansado, levantou de sua cadeira e caminhou até a janela, onde chuviscava do lado de fora. Kyungsoo não queria mais pensar sobre a conversa com o moreno de madeixas douradas e olhos cor de âmbar. E principalmente, não queria pensar nele. Afinal, a decisão que havia tomado foi coerente e certa, todavia...
Para quem?
Para Jongin? O Mordomo tinha quase certeza de que o estudante estaria chorando em seu próprio quarto.
Ou para ele? Talvez, já que apenas estava seguindo ordens do líder da Ordem.
_ Sr. Do. – Kyungsoo ouviu o chamado de um dos caçadores e virou na direção dele, que estava nervoso. – Está acontecendo um ataque numa residência estudantil no centro da cidade. Parece que alguns monstros...
E sem esperar mais alguma explicação do caçador, Kyungsoo deixou a biblioteca e desceu as escadas, correndo para o seu carro. Rapidamente, ligou o veículo, partindo veloz pelas ruas de Londres. Enquanto desviava dos outros automóveis que pareciam ir mais devagar, o Mordomo rezava mentalmente para que o garoto estivesse vivo. As buzinas constantes e os xingamentos dos outros motoristas faziam a paciência do rapaz de olhos grandes se esgotar gradativamente, até que, no momento em que virou na esquina, ele freou bruscamente, assustando-se com um grupo de estudantes que fugiam apavorados.
Nervoso, desligou o carro e desceu do mesmo, correndo até a residência, que estava parcialmente em chamas. O corpo de bombeiros e a polícia tentavam entrar no prédio a fim de retirar as últimas pessoas de lá. Kyungsoo olhou por dentre os estudantes que assistiam o resgate e não demorou muito para reconhecer a garota que estava próxima de Jongin naquela manhã. Rapidamente, o Mordomo andou até ela e segurou-lhe pelos ombros, enquanto lhe questionava onde estava o outro rapaz. Soojung, que estava visivelmente em estado de choque, somente percebeu a presença do outro quando o mesmo gritou com ela. E, aos prantos, Krystal contou que seu amigo ainda estava no interior do prédio no terceiro andar.
Dentro do prédio.
Em chamas.
Kyungsoo olhou para o local por alguns segundos e rapidamente correu para dentro da estrutura, sob os gritos e alertas dos bombeiros. Nos corredores, havia alguns corpos estirados, enquanto os alunos se rastejavam para fora do local. O moreno ainda cogitou em ajudá-los, todavia, ao notar que os caçadores da Ordem faziam tal trabalho, decidiu seguir em frente. A todo instante, tomava cuidado para não pisar em falso na madeira desgastada e evitava tocar no corrimão de ferro que estava absurdamente quente.
Por fim, ao chegar no terceiro andar, havia uma enorme cratera no centro do corredor. Parte do piso havia cedido e a única forma de chegar do outro lado era saltando. Kyungsoo respirou fundo e tomou impulso, conseguindo, com sucesso, chegar ao outro lado. A medida em que passava pelos quartos, constatava que não havia nenhum sinal de Jongin por ali.
Mas, afinal, aonde ele se...
Subitamente, seu corpo voou contra a porta, rompendo a passagem e bolou pelo chão, enquanto um grito de clemência ecoava pelo cômodo em chamas. Kyungsoo apoiou-se nos braços, tentando se erguer e, ao levantar a cabeça, avistou o moreno aprisionado por duas criaturas. Aos seus olhos, eles possuíam a mesma semelhança que Jongin ao se transformar, todavia, eram mais assustadores.
_ Vejo que você conhece esse garoto. – devagar, o Mordomo desviou os olhos para o homem que havia lhe chutado, enquanto protegia as costelas. – É seu namorado?
_ Deixa ele em paz! – gritou Jongin, recebendo uma dolorosa tapa no rosto de um dos lobisomens.
_ O que vocês querem com ele? – rosnou Kyungsoo.
_ Sabe... – calmamente, o homem de sobrancelha cortada abaixou-se a sua frente e segurou seus cabelos, puxando-os para trás, enquanto suas presas eram exibidas. – Nós já temos o que queremos.
_ Não! Kyungsoo! – Jongin relutou contra as prisões e, num único movimento, jogou as duas bestas para longe, saltando na direção do caçador.
E, prontamente, o homem – que para Kyungsoo, parecia ser o líder – lhe segurou pelo pescoço e o jogou no chão como uma boneca de pano. O Mordomo assustou-se com o baque seco do corpo alheio, que despencou dois andares abaixo. Lentamente, um sorriso animalesco se formou em seus lábios, enquanto retornava para junto do menor, segurando-o pelo queixo. Mentalmente, o mais novo praguejou por não ter trazido nenhuma arma que pudesse ser usado contra o bastardo que machucou Jongin.
_ Diga ao seu Mestre que... – começou, piscando devagar. – As peças começaram a se mover...
Contudo, antes que Kyungsoo rebatesse suas palavras, o homem desferiu uma tapa em seu rosto, fazendo-o tombar para o lado, levemente desacordado. Calmamente, o outro se ergueu e desviou os olhos para a cratera no chão, aumentando ainda mais o seu sorriso. No primeiro andar, Jongin se contorcia e gritava de dor, enquanto suas feições mudavam do humano para a fera.
_ É bom você ajudar o seu namorado. – comentou o homem. – Ele está com dificuldades na transformação.
E, num impulso, Jongin se pôs de pé, saltando para o terceiro andar e atacou o homem furiosamente. Suas garras provocavam cortes longos pelos braços e peito do outro, que tentava impedi-lo, enquanto lhe questionava por que raios ele estaria atacando seu Mestre. Rapidamente, a aberração foi arremessada contra a parede, que atravessou, parando no quarto ao lado. Kyungsoo, logo que recobrou a consciência, assistiu o maldito fugir pela janela e, ao tentar segui-lo, foi surpreendido pelo ataque do monstro, que o jogou brutalmente pela janela também.
Seu corpo bolou pelo gramado recém-cortado da residência estudantil, parando próximo de alguns bancos quando sua atenção se voltou para o lobisomem que pousava mais afastado de si. Kyungsoo sentiu uma dor dilacerante em suas costelas e, ao tentar se erguer, foi agarrado novamente pela criatura, sendo assim, arrastado para longe do desastre. A todo instante, o Mordomo lutava contra a prisão alheia e, ao desviar sua atenção para as próprias mãos, percebeu que as mesmas estavam sujas de sangue. Rapidamente, ergueu a cabeça, notando que algumas gotas caiam em sua testa e bochecha.
O sangue não era seu, mas de Jongin.
Seguiram velozes por sobre as casas até a floresta, onde o monstro largou o rapaz numa clareira. Kyungsoo tentou se mover para longe da criatura que se aproximava, mas mais uma vez, o lobisomem segurou-o pela perna, jogando-o para a outra extremidade do campo, fazendo seu corpo se chocar contra uma árvore. O ar escapou rápido de seus pulmões, provocando uma dor ainda maior e, no segundo em que o Mordomo ergueu a mão, numa tentativa inútil de impedi-lo, a besta caiu de joelhos, lhe encarando.
Lentamente, a atenção do moreno de olhos grandes se voltou para a fera que, gradativamente, voltava a sua forma humana e, por um instante, Kyungsoo notou o quão choroso Jongin estava.
_ Soo... – gaguejou, engatinhando na direção do ferido. – E-eu... O que foi...
_ Você... Está bem? – perguntou, arfando. Ainda era possível ver que ele estava sangrando. – Está ferido?
_ Eu... Eu te machuquei... Eu juro... Eu não queria... – e cada vez que Jongin tentava se explicar, mais o coração de Kyungsoo se apertava.
_ Acalme-se. – pediu, suspirando. – Eu vou ficar bem...
_ O-olhe para você! – disse, choroso. – Como... Pode dizer isso?
_ Diga-me. – insistiu. – Você está bem?
_ Sim. – assentiu, limpando o rosto.
Kyungsoo o avaliou em silêncio e gesticulou para que se aproximasse um pouco mais. Relutante, o moreno o fez, ao que o mais velho deslizou o polegar por sua têmpora, notando que não havia nenhuma ferida ali. Enquanto isso, os âmbares vagaram pelo corpo machucado alheio e uma nova crise de choro estava prestes a preenche-lo novamente. Mas antes que o fizesse, Jongin foi puxado pelo outro que o aninhou em seu colo.
_ Está... Tudo bem... – murmurou, afagando suas madeixas douradas. – Está... Tudo bem...
_ E-eu... Eu vou te levar para a mansão... – Jongin murmurou, se mexendo, porém, foi impedido pelo moreno que negou com a cabeça. – Kyungsoo-hyung...
_ Amanhã... Nós vamos... – sussurrou, apagando em seguida.
Por mais que quisesse negar... Jongin era como um dongsaeng para si.
Horas mais tarde, Kyungsoo despertou aos poucos de seu sono, notando que se encontrava a beira de um dos rios que se interligava ao rio Tâmisa. O céu, parcialmente nublado, parecia relutar bravamente contra os raios solares que insistiam em atravessar pelas frestas. Devagar, seus olhos vagaram pelo local, percebendo que ainda estava na floresta, sob a sombra de algumas árvores robustas e, no instante em que tentou se mover, a dor em suas costelas cresceu, fazendo-o gemer baixinho e despertando o loiro de pele castanha deitado ao seu lado. Rapidamente, Jongin olhou em volta e, ao notar que o caçador havia despertado, obrigou-o a permanecer deitado, alegando que ainda precisava se recuperar. O moreno desviou os olhos para a manta vermelha que lhes cobriam e, ao voltar sua atenção para o rapaz, percebeu que o mesmo lhe abraçava com cuidado.
_ O que pensa que está fazendo? – questionou em tom sério, apesar do cansaço. Jongin podia notar que os lábios carnudos não estavam tão avermelhados como da última vez que os viu.
_ V-você passou a noite com frio e... – começou Jongin, corando violentamente. – Eu te aqueci.
_ E onde... Conseguiu essa manta? – logo, arqueou uma das sobrancelhas.
_ Eu... Roubei. – murmurou. – Você... Está bem? Ainda está machucado?
_ Acho que fraturei... Uma das costelas. – comentou, novamente, tentando se mover, provocando assim uma dor em seu corpo. E, logo, Jongin o impediu. – Aliás... Onde estão as minhas roupas?
_ Aqui. – respondeu, mostrando o pequeno bolo das roupas alheias.
_ Dê-me elas. – ordenou, sentando-se com dificuldade no chão. – Preciso me vestir...
_ Você não tem condições de se mover ou... F-ficar de pé. – explicou, olhando-o preocupado. – E o que eu vou vestir? – perguntou.
_ Não “roubou” nenhuma calça extra? – olhou-o de soslaio.
_ N-na verdade, não... – murmurou, puxando a manta vermelha para se cobrir.
Vestir a própria boxer com o corpo machucado não era tarefa fácil, especialmente para Kyungsoo. Até por que a dor em suas costelas o limitava. Jongin, que assistia a tudo em silêncio, percebia os detalhes nunca antes vistos na extensão do dorso alheio. Cicatrizes médias e pequenas, arranhões, hematomas... Além, é claro, da tonalidade pálida de sua tez. A vida que o futuro Mordomo levava era completamente diferente da sua. E, no fundo, o preocupava. Vez ou outra, o dono os âmbares o questionava se precisava de ajuda, tendo como resposta um “não” seco e frio.
_ Hyung....
_ Já disse que não. – rosnou.
_ Tem certeza? – perguntou, pela última vez.
Em resposta – e já desistindo –, Kyungsoo bufou cansado e, para a surpresa de Jongin, assentiu. No entanto...
_ Se tentar algo contra mim... – ameaçou.
_ E-eu não vou fazer nada. – respondeu. – S-se quiser, pode me vendar com a camisa e...
_ Não é necessário.
Devagar, o menor foi erguido e recostado contra o tronco, ao que o maior se abaixou a sua frente, subindo a peça escura pelas panturrilhas grossas e coxas fartas até cobrir completamente a intimidade alheia. E assim que terminou, Jongin o olhou longamente, notando que Kyungsoo sequer lhe retribuía o olhar. Se era constrangedor a situação? O Mordomo preferia não comentar.
_ A... Camisa. – falou, apontando para a peça branca. Concordando de leve, o moreno o fez, pegando a camisa e lhe entregou, vendo-o vesti-la também com dificuldade. – Vista a calça. Não vai querer assustar as garotas por aí, não é? – ditou, tentando descontrair a situação.
Em resposta, Jongin sorriu largo, pegando a peça e vestiu-se, fazendo Kyungsoo, por um instante, lhe condenar: aquela calça combinava mais com ele do que consigo! O Mordomo de Baekhyun abaixou-se para pegar a manta vermelha e cobriu a cabeça e o corpo, enquanto o loiro lhe observava em silêncio.
_ Eu odeio admitir isso... Mas você vai ter que me levar de volta para a mansão. – ditou.
_ Ok. – assentiu, quase o pegando no colo.
_ E Jongin? – suspirou, desviando os olhos.
_ O que? – o olhou.
_ Um pio sobre isso e eu o transformo numa manta peluda preta.


_ Senhor?
Minseok desviou os olhos para a entrada da enfermaria, onde Jongdae o cumprimentou com uma longa mesura. Logo, que recebeu um aceno para que entrasse, o moreno foi empurrado por Eunjung que caminhava em passos largos até o líder da Ordem. O homem de madeixas acinzentadas sorriu de leve ao notar o rosto emburrado de seu Mordomo que seguia a médica mais atrás.
_ Eu fiz o que me pediu. – disse ela, entregando-lhe os exames. – Baekhyun não tem nada. É um garoto saudável e ativo.
_ Mesmo? – olhou-a, verificando os papeis. – É estranho. Ontem à noite, ele massageava o peito constantemente. Como se algo o incomodasse.
_ Talvez fosse má digestão. – a mulher deu de ombros. – Acontece com qualquer um.
_ Não. – negou o mais velho, sem olhá-la. Por fim, suspirou arrastado. – Eu vou pedir que Baekhyun refaça os exames. Eu sei que tem alguma coisa errada nele.
_ Nossa... – desta vez, Eunjung sorriu largo. – O grande Kim Minseok fará os exames pessoalmente no próprio irmão? Achei que estivesse velho para isso.
Em resposta, Minseok desviou gradativamente a atenção para a Médica-chefe, arqueando uma das sobrancelhas. Jongdae, que estava mais atrás, franziu o cenho, confuso com o diálogo particular da dupla, até que Eunjung curvou-se, saindo em seguida. Suspirando pesadamente, o homem de madeixas acinzentadas balançou a cabeça negativamente, reprimindo um sorriso.
_ Sr. Kim. – chamou Jongdae. – O que Eunjung quis dizer...
_ Você sabe mais do que eu que tanto o Líder quanto o Mordomo deve ser bom nos três departamentos da Ordem dos Caçadores... – e o olhou. – Não sabe?
_ Sim, senhor.
_ E no que se especializou? – desta vez, inclinou a cabeça um pouco curioso.
_ Caça. Eu... Sou mais Caçador do que Zelador ou Médico. – respondeu, baixando a cabeça.
Minseok sorriu de leve, levantando de sua cadeira e aproximou-se do moreno, sussurrando em seu ouvido.
_ E eu sou Médico... Mais do que Caçador e Zelador.
Médico? Jongdae o olhou visivelmente confuso. Ele esperava que seu Senhor fosse especialista em Caça, como fora seu pai, Kim Baekhyung, no passado. Ou, pelo menos, era isso que seu próprio pai costumava contar.
_ A-achei... Que o senhor... Fosse...
_ Caçador? – completou, olhando-o. – Não. – negou. – Estar em combate é bom, mas... Eu sinto uma necessidade mais forte em cuidar das pessoas. – por fim, mancou devagar para fora da enfermaria, sendo seguido pelo outro. – Se eu não pertencesse a Ordem, ou tivesse seguido os passos de Baekhyun, eu teria sido médico.
_ Dr. Kim Minseok. – murmurou Jongdae, ainda encantado com a pronúncia dos sons. – Mas... Em qual área da medicina.
_ Você vai zombar de mim se eu disser. – comentou, sorrindo.
_ Por favor. – insistiu, parando diante o Mestre. – Qual área?
_ Pediatria. – respondeu, afastando-se.
“Minseok? Cuidando de crianças?”, pensou o Mordomo. Se antes era difícil imaginá-lo assim, agora, com a confissão... É impossível! Quer dizer, Minseok, para Jongdae, é um dos maiores caçadores de vampiros da história dos caçadores. Superando até o lendário Abraham Van Helsing e até mesmo, seu pai, Kim Baekhyung.
_ E... – o observando se afastar, Jongdae tornou a acompanha-lo. – Por que não seguiu essa carreira?
_ Prioridades, Jongdae. – suspirou, abrindo a porta de seus aposentos e adentrou. – Eu tinha uma Instituição para cuidar.
_ E seu pai? – desta vez, os Netunos brilhantes se voltaram para o moreno. – Digo... Baekhyung também era caçador? Ou... Médico?
_ Não. – negou. – Meu pai era Zelador. – e Minseok notou a surpresa estampada na face alheia. – Eu sei o que está pensando. Mas... Somente recorriam ao meu pai em última instância, função semelhante aos dos Zeladores.
_ É por isso que esse departamento se orgulha tanto? – sorriu. – Uma vez, eu vi a foto de seu pai ao lado dos Zeladores da época, quando fui conversar com Yixing.
_ Sim. – concordou, pensativo. – Tanto Yixing quanto todos os Zeladores da Ordem se orgulhavam do antigo Líder.
E, em passos lentos, Jongdae se aproximou de seu Mestre, depositando um breve selar em seus lábios, surpreendendo-o.
_ E agora... Os Médicos se orgulharão do novo. – murmurou ele, avistando um sorriso largo nos lábios alheios.
_ Sr. Kim! – quase como imãs de polos iguais, Jongdae e Minseok se afastaram um pouco, enquanto Jongdeok entrava no lugar. Rapidamente, o Chefe dos Caçadores cumprimentou-os, voltando sua atenção para o líder. – Senhor, Kyungsoo acabou de retornar. Ele está gravemente ferido e... Não veio sozinho.

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